Visita ao Coração do Passado

Joaquim Vasconcelos

Joaquim Vasconcelos

(Engenheiro e Ambientalista)

Fizemos um percurso pedonal que se desenvolve entre dois concelhos e três freguesias, com inicio em Vila Praia de Âncora. Inicialmente caminhámos pelo areal até ao forte do Cão. Construído no milénio passado entre1699 e 1702( séc. XVII) no reinado de D. Pedro II, para defender a costa da pirataria.

Mais um saltinho, mesmo ao lado deste forte fica o “portinho de sargaço do Forte do Cão”, onde se localiza a estação arqueológica do paleolítico. Aqui fomos até à pré história idade da pedra lascada (8 000 a.C.), onde ainda encontramos peças de granito feitas nessa época, como o caso dos picos Ancorenses ou Asturienses, pesos de redes, machadinhos etc.. Não houve troféus! Tudo o que vimos, ficou lá ...

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Seguimos até à mamoa da Ereira (monumento funerário), existente em Afife e recumos até ao II ou I milénio a.C., entramos na idade da pedra polida; todo este património está abafado por intenso coberto vegetal com predominância de austrálias e silvas, não se vendo a mamoa nem o painel explicativo que está escondido no meio de toda a vegetação. Foi isto que vimos. Mas não desanimamos.!... Subimos até ao monte da cividade à procura da Cividade de Afife/Âncora. Muito próximo daquela encontramos gravuras rupestres.

 De seguida subimos até ao referido monumento que se encontra escondido por uma flora bastante alta onde imperam austrálias fetos e silvas, encontrávamo-nos na idade antiga séc. VII ou VI a. C.. vendo um património totalmente abandonado, sem limpeza, sem sinalética, sem qualquer painel com um resumo da história destes monumentos.

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O nosso espanto era total!

Valeu a pena ter feito o trabalho de casa para poder dar algumas explicações sobre este monumento que representa uma fortificação castreja quando as comunidades nómadas se começaram a fixar (sedentarismo).

Quem comigo visitou estes monumentos ficou incrédulo com o que íamos vendo! As agendas de Verão destes dois municípios apresentavam uma animação intensa, no entanto aquele património histórico estava totalmente abandonado à sua sorte, à espera que o tempo elimine por completo as nossas raízes culturais.

Aqui, parecem querer copiar o desenvolvimento Algarvio, em que o poder imposto pelo dinheiro permite todo o tipo de disparates urbanísticos, possíveis e imaginários, mandando ‘às urtigas grande parte da legislação.

A falta de criatividade desta gente, apostou num turismo de praia com a aplicação de milhões de euros no parqueamento automóvel e ciclovias, sem analisar quais as probabilidades de isso servir para ampliar um turismo sazonal. Pelo contrário, persistem fortes probabilidades de se gastar dinheiro em obras que destroem o ambiente (rede Natura2000).

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 Torna-se dramática a nossa impotência em inverter este provincianismo do poder que resiste há dezenas de anos a este lento envenenamento, a esta continua adoração e idolatria dos subprodutos culturais, deturpadores e poluidores, culturais do ambiente e das populações, em muitos aspectos irrecuperáveis. Noutros países, todo este património seria o orgulho da comunidade; nós, por cá, preferimos copiar outras culturas, perdendo assim a nossa identidade e respeito pelos nossos antepassados.

Nesse trajecto, ainda passámos pela capela de nossa Sra. do Socorro, documento físico da Idade moderna do séc.XVII que, embora seja uma capela de um particular, é um património integrado no município de Caminha com uma riqueza visível nas ruínas existentes. Além disso, existem documentos que referem terem sido realizados jubileus nesse local (que eram indulgências plenárias concedidas pelo Papa – em épocas fixas e sob certas condições). Estes privilégios demonstram o peso religioso que esta capela teve durante o séc.XVII, a nível Nacional e Europeu.

É também visível um painel de azulejo, que se encontra numa parede, no interior do templo, ao tempo. O painel representa um retábulo das almas, cujo elemento protector não é representado por S. Miguel mas pela Sra. do Socorro. Uma possível obra de arte que se vai perder!

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Na verdade parece que os responsáveis não sabem o que existe nas suas áreas de gestão ou consideram que aqueles sulcos nas pedras são brincadeiras de crianças ou aquelas pedras que constituem a cividade são muros divisórios de alguma propriedade, bem como as paisagens que as circundam, mas que os responsáveis já se cansaram de as ver não lhe dando o valor que merecem. No entanto, quem nos visita sente-se recompensado quando encontra documentos que mostram a nossa evolução ou o lento caminhar na história, pois são esses documentos que representam as nossas raízes culturais permitindo caminhar e moldar a natureza durante milhares de anos, sendo o que nos diferenciam de outros povos.

Foi dentro destes objectivos que fomos preparando este percurso cultural que nos levou ao interior do Vale do Âncora  e em parte da concha de Afife, ‘pisando’ a história, caminhando e sentindo um pouco da vivencia de diversas fases da nossa identidade cultural.

Tal como Miguel Torga refere no (Diário VIII), eu também sinto que : “Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má fé que nem ao menos lhe dá a simples protecção de as respeitar”.

Foram parte desses caminhos e sua historia que denominei como o percurso “ Visita ao Coração do Passado”  que tem aproximadamente 12 Kms e uma forma circular. Percorri-o com meia dúzia de amigos, mostrando-lhes um património escondido. Eles foram mais enriquecidos com a história dos povos que desbravaram esta área minhota; mas desiludidos com a falta de cultura e o provincianismo doentio das entidades responsáveis, ao deixarem todo o nosso património ao abandono.