Venezuela: Crise, fome e morte… a que não escapam Minhotos!

Venezuela, país de acolhimento para muitos portugueses nos anos 50, tem hoje taxas de emigração a rondar os 70%. A nossa reportagem foi ao encontro de alguns minhotos que conseguiram regressar deixando para trás tudo. Inclusive familiares que faz com que alguns tenham medo de falar...

 

Aquele que é considerado um dos países mais ricos do mundo não só pelas suas reservas petrolíferas, mas também por ser detentor de riquezas naturais e minerais quase sem fim, encontra-se a viver uma das crises mais brutais a nível social, político e económico. Segundo os dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) a Venezuela regista uma crise económica cada vez mais profunda e grave. É o país com mais alta recessão da América Latina. A inflação, constantemente a crescer, já passou de 254,4%, em 2016, para 652,7% em 2017 e a continuar, prevê-se que poderá atingir os 2.349,3% em 2018. 

Todos estes fatores fazem que a população, profundamente dividida em termos políticos, entre numa espiral de sobrevivência. O salário mensal de um venezuelano, quando feita a conversão monetária, ronda os 11 euros.  

Estes fatores fazem que a vida das famílias venezuelanas seja cada vez mais difícil. Para Ildefonso Mejia, funcionário público: “é quase impossível viver. É necessário quase um salário inteiro para comprar um kilo de carne. É uma situação desgastante e eu não tenho filhos…imagino a aflição de todos aqueles que são pais”, confessa.

A crise venezuelana vem incrementado desde há vários anos. A expropriação de fábricas e industrias alimentares por parte do governo e o êxodo das restantes fábricas de produção alimentar fez com que a situação se tornasse quase insuportável e atirou a Venezuela para uma crise profunda, deixando a população com índices de desnutrição -sobre tudo infantil-sumamente alarmantes, quase equiparados aos países africanos. Desde inícios do ano 2017 que os venezuelanos perderam, em média, 8 a 10 kilos de peso. 

Nas ruas de Caracas, capital do país, e um pouco por todo o território, já se tornou habitual ver pessoas a remexerem no lixo para tentar encontrar alguma coisa para comer. Benita Ruz, doméstica, explica: “ver pessoas a mexerem no lixo era uma cena que só víamos nos sem-abrigo…hoje em dia neste país é como se todos tivéssemos passado a ser sem-abrigo. Comer pelo menos 2 vezes por dia é uma bênção! E coitados de todos aqueles que estão doentes…morrerão à espera de medicamentos”.

Minhotos atingidos pela crise na Venezuela

Minhotos atingidos pela crise na Venezuela

Quando a doença não encontra remédios…

A crise hospitalar e de medicamentos também afeta o país. Os hospitais públicos não têm recursos e as clínicas e hospitais privados, além de também não terem recursos, já não possuem vagas disponíveis para tantos doentes.

Estar saudável na Venezuela é um luxo supremo e todos aqueles que estão doentes vêm a sua vida dependente, muitas vezes, de um simples comprimido que não conseguem encontrar e que condiciona o tratamento que os mantém com vida.

Hospitais sobrelotados, quimioterapias e radioterapias congeladas por falta de meios. Mães que vêm os seus filhos morrerem em macas improvisadas feitas no chão, com mantas velhas…

“Já nem sabemos o que é melhor: viver estar realidade ou fechar os olhos de vez”, desabafa Rafael Benitez, familiar de um doente internado no hospital Domingo Luciani, em Caracas. 

Esta situação alastra por todo o território nacional. Manuel Lopes, emigrante na Venezuela há 45 anos, natural da Vila de Ponte da Barca e casado com uma venezuelana, viu a vida da sua esposa apagar-se em menos de uma semana: “nós não sabíamos que ela estava doente. Há uma semana sentiu-se mal, umas dores de estômago insuportáveis. Fomos a vários postos médicos e num deles deram-nos o único comprimido laxante que tinham. Se não melhorasse tínhamos de voltar”. E assim foi, as dores voltaram e Lopes, acompanhado de outros familiares, começaram a frenética rusga à procura de um centro hospitalar que aceitasse a sua esposa. Três longas horas passaram dentro do veículo. Quando por fim foi admitida num centro hospitalar nos arredores de Caracas, já foi demasiado tarde: “já não chegamos a tempo...a minha esposa morreu sem ser atendida, sem sabermos o que tinha…deitada numa maca nos corredores do hospital”, desabafa.

Minhotos atingidos pela crise na Venezuela

Minhotos atingidos pela crise na Venezuela

Toda esta situação de grave crise tem obrigado os venezuelanos a procurarem outros destinos além-fronteiras para dar às suas famílias uma nova oportunidade. Regiões como a Madeira estão a ser, para os Venezuelanos, o porto de abrigo para fugir a tanta miséria; tal como há anos a Venezuela foi o destino para tantos portugueses que fugiram à procura de uma melhor vida.

Esta situação, e segundo dados apurados pelo MD, não se cinge só às Ilhas, também no Norte, especificamente na Vila de Arcos de Valdevez, famílias inteiras chegam à procura de oportunidades e de ajuda. Um funcionário da Segurança Social da vila minhota confidencia que: “são cada vez mais os venezuelanos que vêm cá à instituição pedir ajuda. Não só financeira, mas também emprego”.  

O funcionário explica que não tinha ideia de que existissem tantos venezuelanos nesses arredores e muito menos que viessem fugindo de uma realidade tão extrema: “aquilo que eles nos contam parecem testemunhos dos refugiados. Não tinha ideia de que a situação naquele país, que foi um paraíso há alguns anos, fosse tão ruim”, culmina.