UMA TRISTE MAS SENTIDA ESPERANÇA

Joaquim Letria

Joaquim Letria

A gente chora o destino que, há décadas, um conjunto de filhos de mães diferentes anda a preparar para o Edifício Coutinho, em Viana do Castelo.

Espantamo-nos com a pouca vergonha com que essas criaturas fizeram todas as manobras possíveis para espoliar, extorquir, desautorizar, subtrair e pôr a render a morte duma quimera que alegrou a existência de cerca de 300 pessoas, nacionais e estrangeiras, que viram um sonho no Coutinho e um gosto em viver em Viana do Castelo.

Serviram-se de todos os subterfúgios que souberam e de outros que lhes inventaram para despojar, desanimar, frustrar e caluniar quem defendeu o que era seu, comprado com as poupanças duma vida, pago com o crédito da sua honradez e à vista de todos, no total respeito pelas leis com que o prédio Coutinho foi construído, desenvolvido e vendido em parcelas de um sonho que a cupidez, a ganância e a manipulação das leis acabaram por transformar em envenenadas fatias dum bolo com a doçura dum pesadelo.  

A golpada, tocada a diversas mãos e com diferentes executantes, nem sequer é original. Encontramos a matriz duma idêntica pulhice na história fascinante de Aquarius, um prédio no Recife que sofreu os mesmos desmandos e desonesto desprezo e cujo caso acabaria recentemente por ser levado ao cinema por Kleber Mendonça Filho, com Sónia Braga a conferir-lhe a qualidade que o transformou num  interessantíssimo  filme internacional. 

Mas há mais quem esteja a preparar a nova encenação do caso Coutinho. Em Grândola, que o José Afonso cantou como sendo a terra da fraternidade, e onde se supunha que o povo mais ordenava, há uns bastardos dos carrascos do Coutinho que se preparam para derrubar a velha, elegante e histórica Casa Baraona, que as gerações vivas de Grândola sempre conheceram, para – dizem eles -- “ali construir algo moderno e consentâneo com o Século XXI”.

Curiosamente, esta rapaziada esqueceu-se de incluir este inovador projecto no caderno da sua recente campanha eleitoral preenchido por promessas que não são para cumprir. Onde é que já ouvimos esta cegada?

Em Grândola, grande parte da população já disse que nem pensar, não aceitando a falsa modernice dos distintos eleitos. Oxalá matem a canalhice à nascença, senão ela tem recursos, advogados, engenheiros, arquitectos e juízes para fazerem uma sequela do caso Coutinho. Há quem diga que casos destes são casos de Polis. Cheiram-me mais a casos de … Polícia.

Também em Grândola recorreram ao ardil da estética. É falso! Esta gente é a mesma que está a construir um muro vergonhoso à volta do Mosteiro da Batalha para, dizem eles, proteger o nosso belo e patriótico monumento do efeito nocivo das centenas de toneladas que diariamente circulam a seu lado para não pagarem caro um minúsculo troço de auto-estrada cuja portagem se recusam a eliminar. Que pode esse muro da vergonha proteger o Mosteiro? Dos fumos, da poluição, ou da vibração que a passagem dos pesados caminhões provoca, a ponto de caírem seculares vitrais próximos das Capelas Imperfeitas? Mentira sem vergonha e com todo o descaramento!

 

Os dias parecem mais curtos, aproximando-nos celeremente da data anunciada para os ocupantes do poder expulsarem, a bem ou a mal, os últimos oito proprietários e cerca de 30 moradores que, sem acreditarem numa derrota, se vêem chegar ao fim duma resistência notável que todos devemos respeitar e admirar para não deixarmos esquecer a memória do caso Coutinho nem os nomes desses locatários que serão expulsos do que é seu por uma força policial se os falcões peregrinos e os andorinhões, amigos do Coutinho, não tiverem força suficiente para levarem a Europa a fazer recuar os carrascos e Sua Excelência o Presidente da República, sempre tão interventivo e afectuoso, não levar a Viana do Castelo nada mais simples do que uma mão cheia de bom senso.

Como Sophia de Mello Breyner escreveu,

Deixai-me amplo

O ar dos quartos

E liso

O branco das paredes

Deixai-me com as coisas

Fundadas no silêncio

Intervenção na TVI (A Tarde é Sua) na passada 2ª feira (15/Janeiro):

http://www.tvi.iol.pt/programa/a-tarde-e-sua/53c6b3883004dc006243ce59/videos/--/ates--videos/video/5a5ceb7e0cf26606e899a72c/1

Joaquim Letria na TVI

                                                                             

Autor:

Joaquim Letria
Joaquim Letria
Janeiro 19, 2018

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