Tempero

Armando Caldas

Armando Caldas

Médico

Vivemos em plena era digital. A linguagem informática baseia-se na redução do Universo a um sistema der dois algarismos resumidamente composto pelo zero e pelo um, ou ligado e desligado, os quais se associam para construir entidades progressivamente complexas formadas a partir do encadeamento de sequências que conjugam apenas o tudo e o nada.

 

O digital veio permitir a replicação exacta das formas a ele convertidas, como por exemplo a imagem ou o som, transformando de forma profunda o nosso relacionamento com o mundo e possibilitando a construção da chamada sociedade da informação.

A evolução do digital visou a construção cada vez mais realista de equações capazes de reproduzir num padrão apenas composto por zeros e uns a maior variedade possível de subdivisões intermédias em que é possível separar o tudo e o nada com que de repente passou a ser escrita o nossa vida, tentando reproduzir a escala de cinzentos que se escondem entre o preto ou branco.

Tentar reduzir a vida a uma opção de opostos faz tanto sentido como tentar encerra todo o Universo numa partícula de nada.

A vida que nos foi dado viver é resultante da reequação de múltiplos equilíbrios de partículas subatómicas desde que a História começou a ser escrita pela História ao longo de um complexo sistema evolutivo onde o hoje resulta de um aprimoramento do ontem, ao longo de uma competição que determina o que vai continuar a fazer parte da natureza.

 

Sabemos quase todos que o nosso corpo é formado por uma grande quantidade de água. Sabemos muitos de nós que a água que existe em nós não é simples água pura, como a água destilada, mas que inclui uma quantidade equilibrada de cloreto de sódio – o vulgar sal – que compõe o chamado soro fisiológico que não é mais do que água pura com uma concentração de 9 gramas de cloreto de sódio por litro, ou 0,9% sendo que a alteração deste valor provoca alterações do chamado equilíbrio hidro-electrolítico potenciando complicações graves.

O sal é um elemento imprescindível na vida e foi talvez por isso que o trabalho foi inicialmente pago em sal, de onde foi originada a palavra salário.

Além das funções vitais e financeiras, o sal é um componente imprescindível da cozinha, utilizado para alterar o sabor dos alimentos que transformamos normalmente pela acção do calor, de modo a os tornar mais agradáveis ao paladar.

A falta de sal torna os alimentos insossos e o excesso de sal torna os alimentos salgados, constituindo o tempero na forma como equilibramos a adição  deste ou de outros aditivos à substâncias que ingerimos na refeição.

Se um bom tempero é fundamental na cozinha e imprescindível para o correcto funcionamento do organismo, também me parece que um adequado tempero deve ser basilar nas relações humanas em que se enquadram as actividades sociais e políticas, devendo ser evitados os frentismos extremistas de modo a que só seja branco o que é realmente  branco e preto o que é realmente preto, articulando-se o resto numa equilibrada escala de cinzentos – que podem ter várias cores.

 

Num mundo onde o ser e o não ser se confundem muitas vezes, parece-me fundamental ter o discernimento para tentar encontrar soluções equilibradas que conjuguem da forma mais harmoniosa possível as várias vontades resultantes de múltiplas visões subjectivas da mesma realidade, de modo a que, sem inviabilizar o respeito das preferências individuais, se promova o melhor interesse colectivo, o qual não será certamente unanimista, mas que seja capaz de promover a paz e o progresso de modo a que a História da Humanidade possa a continuar a ser escrita no planeta, respeitando a diferença sem impor a diferença, respeitando a igualdade sem impor a igualdade.

 

Conseguir um bom tempero da vida colectiva deveria ser a ambição de qualquer político, ao invés  da simples conquista do poder para distribuir benesses pelos parceiros que o ajudaram a agremiar votos para legitimar o direito a mandar nos outros.

Infelizmente parece que o bom senso não tem sido o melhor conselheiro dos nossos decisores, os quais aparentemente parecem estar mais preocupados  com a colonização das suas clientelas nos lugares aptos para promover a gestão dos negócios que a política controla  do que com a efectiva resolução dos problemas estruturais que impedem um saudável desenvolvimento colectivo.

Autor:

Armando Caldas
Junho 16, 2017

Partilhar

Do mesmo autor...

Sim, ele conseguiu! Novembro 2016
Tudo começou com uma maçã... Outubro 2016
Medicina defensiva Junho 2017
Tempo de Natal Dezembro 2016
Apocalipse Fevereiro 2017