Salvador Vieira partiu: Ficou a obra para lembrar perenemente o artista que foi!

A amizade é um valor que nos pode trair na apreciação justa de alguém. Mas ao falarmos de Salvador Vieira esse risco torna-se menor, porque dos seus atributos só pode resultar elogio. Deixou-nos o criador e executante primoroso, que marcava a diferença na arte que produzia em praticamente todas as disciplinas. Especialmente para todos aqueles que estavam mais atentos ao seu trabalho, era reconhecidamente um artista que ia muito para além do espaço geográfico em que se movimentava e dava a reconhecer a sua obra.

Gonçalo Fagundes Meira

Costumava dizer que pintava e desenhava como respirava. Ora isto só era possível porque era possuidor de um talento natural que lhe permitia produzir arte, especialmente na execução, onde evidenciava qualidade e beleza. Frequentemente se ouve dizer aos artistas que é necessário trabalhar diariamente e durante muito tempo para não se perder o ritmo, ganhar destreza e aperfeiçoar pormenores. Todos temos a consciência de que em todas as artes só a persistência e o trabalho intenso podem conduzir à perfeição. Com Salvador Vieira isso não acontecia tanto. Tal foi patente agora nos últimos anos de vida, em que a doença o obrigou a largos interregnos na sua actividade artística. Parava, mas quando voltava ao trabalho era manifesto nele a desenvoltura no uso dos materiais, a firmeza no traço, na pincelada forte e na combinação cromática, que tornavam evidente a qualidade da obra produzida. Inconformado, nunca se quedou num estilo ou numa técnica. Foi um experimentalista, fazendo incursões pelos mais diversos campos artísticos, como ficou bem patente nas suas exposições retrospectivas. O retrato foi uma das suas grandes especialidades, daí ser muito procurado pelas instituições para retratar personalidades que lhes prestaram serviços para figurar nos seus espaços nobres.

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Salvador Vieira teve um percurso rico e variado na sua vida artística e profissional. Nascido em 1937, frequentou a Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, onde teve como professor Carolino Ramos. Em 1953 o aluno passa a relacionar-se artisticamente com o Mestre, numa colaboração diária, de qual resultou uma profícua aprendizagem, que o discípulo nunca deixou de reconhecer. Na oficina de Carolino Ramos, Salvador Vieira aprofunda a prática do desenho e inicia-se na modelação e na moldagem em gesso. É aqui também queinicia a sua actividade artística, onde durante sete anos aperfeiçoa as técnicas de pintura, modelagem, moldagem, cenografia, publicidade e restauro. Falecido o Mestre, precocemente, o discípulo, em 1965, parte para Paris, onde se radica. Aí exerce a actividade de desenhador de arquitectura e frequenta a École Superieur de Beaux-Arts. Em 1969, participa na terceira exposição de artistas portugueses na Casa de Portugal em Paris, partilhando a mostra com grandes nomes da arte portuguesa, entre eles Manuel Cargaleiro e Henrique Silva.

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Regressa a Portugal em 1970 e ingressa no ensino secundário como docente. Ainda neste ano, integra a exposição Mobil de Arte. Em 1973realiza uma exposição individual de pintura na Galeria Abel Salazar, Porto. Paralelamente a uma intensa actividade artística de cariz comercial e de intervenção pública, neste caso com destaque para a pintura de grandes retratos de figuras da sociedade portuguesa, seguem-se anos de participação em várias exposições individuais e colectivas. Em 1985 obtém o prémio Pintor José de Brito, atribuído pelo Cento Cultural do Alto Minho, e em 1986 realiza nos Antigos Paços do Concelho de Viana do Castelo uma exposição individual de pintura, subordinada ao título “Mitologias”. Em 1988assume a docência na Extensão Artística da Cooperativa Árvore, em Viana do Castelo, criada por protocolo com o Centro Cultural do Alto Minho.

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Salvador Vieira

A componente escultórica, que vinha tendo expressão de menor visibilidade no seu percurso artístico, é assumida de forma mais comprometida em anos recentes. Inicia-se em 2006,com a execução do monumento de homenagem a António Cunha, empresário e fundador da empresa “AVIC”. Prossegue com a execução do monumento de homenagem ao Homem do Rio, situado na rotunda do Cais Novo, e com a execução de outras peças escultóricas para outros espaços e regiões do país. Mas é na Vila de Ponte de Lima, a partir de 2009, que dá mais profundidade à disciplina da escultura, assumindo a autoria dos monumentos de homenagem ao Cardeal Saraiva e a Amália Rodrigues (baixo-relevo) e os monumentos alegóricos ao folclore do Alto Minho, intitulado "As Feiras Novas", e ao trabalho da terra, "Memórias do Campo".

Nos últimos anos, já abalado pela doença, Salvador Vieira não perde o fulgor e vem ainda a participar em diversas exposições individuais e colectivas, especialmente organizadas pelo Centro Cultural do Alto Minho, instituição com quem teve uma colaboração de grande intensidade.

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Salvador Vieira nunca procurou honrarias, antes as recusava, e jamais fez alarde do seu talento e do seu valor. Dada a sua dimensão artística, pode dizer-se que passou quase despercebido na sociedade, longe dos holofotes, e muito voltado para o seu espaço doméstico, para a família e para alguns amigos mais dilectos. Contudo, era um homem solidário e de causas. Desde sempre preocupado com a sociedade, também valorizado política e socialmente com a sua passagem por Paris, na sequência da revolução do 25 de Abril de 1974, tornou-se espontaneamente um artista de serviço na transformação da sociedade. Pintou retratos de candidatos a eleições políticas, fez pinturas murais, produziu cartazes, capas de revistas e livros, pintou cenários, painéis, faixas propagandísticas, etc, materiais que tiveram ampla difusão à escala nacional, em publicações diversas. A sua obra, numa versão de cariz mais popular, digna de ser apreciada, é profusamente evidente na Quinta do Santoinho. Ali também tinha um espaçoso atelier, onde o seu corpo repousou e onde lhe foi prestada uma homenagem sentida por muitos dos seus amigos.

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Apesar de evitar promoções, Salvador Vieira aceitou, em 2011, a edição de um álbum fotobiográfico patrocinado pela “ALERT Life Science Computing”, no qual também colaborei, que contou com um belo texto de Madalena Oliveira, docente da Universidade do Minho, que lhe faz o retrato perfeito, na base de um estudo aturado sobre a sua bem preenchida vida artística. Aqui foi ele o retratado, contrariamente ao que fez para tanta gente ao longo dos tempos. Trata-se de uma obra que perpetuará o seu génio de artista e que as gerações vindouras, especialmente aquelas que às artes se vierem a ligar, gostarão de conhecer e estudar. Paralelamente, teve duas exposições retrospectivas em Viana e Ponte de Lima, onde se conseguiu reunir boa parte da sua multifacetada obra que consta desta edição, que tem por título “Salvador Vieira – traços do homem e do artista”. Foram dois momentos altos que fizeram alguma justiça a alguém que apostava em se ocultar, como se tivesse vergonha de ser o artista que era

No ano de 2013 o Centro Cultural do Alto Minho e a Câmara Municipal de Viana do Castelo, e mais tarde a Escola Secundária de Monserrate e a União de Freguesias da cidade, estabeleceram um protocolo para homenagear Carolino Ramos, onde igualmente me envolvi, que resultou na edição da obra “Carolino Ramos – a pulsão pela arte” e ainda na produção de um filme e na edificação de uma peça escultórica. Aqui o discípulo não perdeu a oportunidade de abraçar a causa de homenagem ao Mestre sentido como se fosse a última acção da sua vida. Salvador Vieira constituiu-se como parte activa nos projectos da obra escrita e do filme e chamou a si a responsabilidade de produção da peça escultórica. Não foi fácil, porque a saúde declinava (orientou os trabalhos finais da escultura pelo telemóvel a partir do hospital) mas, felizmente, viu concretizada a homenagem que tanto desejava e pela qual tanto tempo aguardou.

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Salvador Vieira

Apesar de bem ciente da doença com que se debatia, Salvador Vieira nunca perdeu fulgor artístico, jamais rejeitou projectos, nunca deixou de sonhar com novos caminhos para a sua arte e nunca abdicou de ser o artista insubmisso que sempre foi. Deixou alguns projectos por concretizar porque a morte o atraiçoou. Pouco antes do seu internamento hospitalar manifestou-me a convicção de que o projectado não podia ser abandonado. Infelizmente, a morte é algo a que ninguém troca as voltas.

Veremos, Salvador, como será possível no futuro dar concretização a alguns dos teus sonhos. A homenagem dos teus amigos e da tua família, no teu espaço de sempre, no teu atelier, rodeado dos teus quadros e da tua arte em geral, demonstrou a estima que concitavas e como serás sempre lembrado como um cidadão pleno e um artista insigne.