Profissões 'trocadas' em Ponte da Barca e Arcos de Valdevez?

Uma mulher que combate incêndios e um homem que passa a ferro. Profissões cada vez mais mistas, mas que ainda são vistas, por alguns, como impróprias para um ou outro género. O MD foi à procura dos testemunhos de homens e mulheres que têm profissões inesperadas, mas, no entanto, são bem-sucedidos.

Daniela Machado, 29 anos, bombeira na Corporação de Bombeiros Voluntários de Ponte da Barca, sente que cada vez mais a sua profissão é mista, mas confessa que, nalgumas situações, ainda sente os olhares por causa de ser mulher, uma mulher bombeiro.“Às vezes, quando vamos fazer combate a algum incêndio - de habitação ou florestal - a reação das pessoas quando tiro o capacete e reparam que sou mulher é de admiração, precisamente por ser mulher e por ter feito o trabalho como qualquer um dos meus colegas homens”.

A bombeira vê com agrado o facto de cada vez mais haver mulheres que querem fazer parte da corporação de bombeiros, que queiram ser polícias ou, até, fazer carreira militar. “Eu também fui militar. Andei na tropa. E também nesse registo há cada vez mais mulheres que são tão ou até mais competentes do que os homens”. Daniela saiu da tropa porque na altura quis constituir família e era difícil gerir o tempo familiar com a profissão. “Na altura decidi abandonar a tropa. E entretanto, como não tinha emprego, fui trabalhar com o meu pai, nas obras!”. Confessa que havia olhares de admiração, mas também de incompreensão. Não é normal encontrar uma mulher a fazer serventia na área de pichelaria, mas Daniela fazia-o e não tinha qualquer tipo de dificuldade.

O facto de ser mulher e ter trabalhado como ajudante de pichelaria, ter sido militar e agora bombeiro não a faz perder em nada, a sua feminilidade. É mulher, mãe e profissional. Como qualquer outra mulher, em qualquer outra profissão. Daniela confessa que o facto de trabalhar com tantos homens jamais constituiu um problema. “Cá na corporação, atualmente, somos seis mulheres bombeiros, e os nossos colegas tratam-nos, e acima de tudo, vêem-nos como isso, como suas colegas. Não há distinção. Respeitam-nos muito e, no meu caso particular, sinto que gostam de trabalhar comigo e sentem orgulho no meu trabalho e no gosto que eu tenho em ser bombeiro”, afirma.

Daniela confessa que muitas vezes, em situações de socorro e acidentes, ou mesmo quando há alguma situação de emergência que envolve mulheres ou crianças “são os próprios colegas que se sentem mais tranquilos se uma de nós os acompanhar para tratar da ocorrência. Somos mulheres, e em certas situações, somos mais sensíveis”.

mulher bombeiro

Apesar de vivermos num mundo globalizado e tecnológico, ainda persistem alguns preconceitos acerca de muitos temas, um deles, o género nas profissões. É normal encontrar admiração e estranheza quando se vê, por exemplo, um homem costureiro, uma mulher taxista, ou até homens que passam a ferro.

Para Bruno Almeida, 35 anos, passar a ferro era uma profissão que jamais pensou vir a exercer. Era comercial na área das telecomunicações (centrais telefónicas) mas, entretanto, surgiu a oportunidade de negócio numa área desconhecida: uma lavandaria. Decidiu arriscar e empreender neste negócio, um franchising, na vila de Arcos de Valdevez. “Confesso que nunca tive comentários desagradáveis por causa de estar à frente do ferro. Mas sinto que as pessoas não acham normal ser homem e passar o dia a engomar roupa. Já ouvi muitos comentários, maioritariamente de mulheres, muitas entram cá na lavandaria para dizer - em tom de brincadeira - que dariam tudo por ter um homem assim em casa”, e é através destes comentários que Bruno sente e consegue perceber que o facto de ser homem e passar a ferro cause estranheza porque não é algo comum, e as pessoas ficam admiradas. “Eu costumo dizer- também em tom de brincadeira 'que sou o homem de sonho de qualquer mulher', comenta Bruno, divertido.

O empresário confessa que sente olhares muito mais incriminatórios por parte dos homens. “O ferro nesta lavandaria está exposto. Todo aquele que passe no passeio dá de caras comigo a passar a ferro. E sim, as pessoas passam e ficam a olhar. As mulheres esboçam sorrisos e até comentam entre elas. Mas os homens lançam olhares diferentes, muitos deles até noto que gozam com a situação. Mas é normal. Não é comum ver um homem a passar roupa a ferro e muito menos de uma maneira tão exposta”, comenta.

passar ferro

Bruno optou por assistir a formações para aprender o método de passar a ferro de uma maneira profissional e confessa que “a formação era em Braga, numa lavandaria que está situada num centro comercial da cidade, e incrivelmente, senti muitos mais olhares em Braga do que cá, na vila de Arcos de Valdevez. Senti que na formação não me tratavam como a um formando normal, por ser homem. Queriam-me falar mais acerca da organização, não queriam que eu aprendesse a passar a ferro. Senti que as formadoras pensavam que realmente não era trabalho para um homem. Era como se não me levassem a sério”.

As profissões, com o tempo, estão a deixar de ser estandardizadas mas, sem dúvida, ainda existem profissões que são mais procuradas por um ou outro género. “Se eu tivesse de contratar alguém, contrataria um homem. Mas tenho noção que não é um posto de trabalho ao qual se candidatem homens. Esta marca de lavandarias tem, aproximadamente, 250 lojas, e sou eu o único homem que passa a ferro. Sinto orgulho naquilo que faço e posso afirmar que o faço com gosto e profissionalismo” e refere -em tom de brincadeira- "tenho a certeza de que passo a ferro melhor do que muitas mulheres", culmina.

ferro homem

Para perceber a estandartização e o preconceito que podem existir nas candidaturas às ofertas de trabalho e para aprofundar mais nesta investigação, decidi responder a um anúncio que vi afixado num local de restauração. O anúncio dizia:  «precisam-se para a França oficiais de primeira (trolhas) e ajudantes». Telefonei para me candidatar à vaga de ajudante e a resposta que me davam era que a oferta de trabalho era para trabalhar nas obras, não precisavam ninguém para o escritório. Voltei a referir que o meu telefonema era para me candidatar a ajudante (de trolha) e os risos não se fizeram esperar. “Menina, você é mulher, acha mesmo que pode vir trabalhar connosco nas obras?

-E por que não?

-Porque este trabalho é para homens, é duro, você não aguentaria» -  ouviu-se do outro lado do telefone…

 

Os géneros existem para nos caracterizar fisicamente, não para reduzir a nossa condição de humanos.

“Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem. Lutar pela diferença sempre que a igualdade nos descaracterize”. (Boaventura de Souza Santo)