OS FALCÕES AMAM O COUTINHO

Joaquim Letria

Joaquim Letria

Estava muito longe de imaginar possível a onda de apoio recebida pelo meu artigo contra o fim do edifício Coutinho, em Viana do Castelo.

Assim sendo, onde estiveram metidos estes vianenses, beirões e transmontanos que me contactam agora mas que se mantiveram em silêncio desde as primeiras ameaças  de execução do prédio Coutinho?

Só próximo da subida ao cadafalso do inocente e agrilhoado condenado esta gente solta em surdina o seu “miserere nobis”, tão em surdina que não chega ao Sr Bispo, reconhecido confidente do Sr. Presidente da Câmara.

O carrasco é contratado fora de Viana pelo cachet de 1.2 milhões de euros e inevitáveis alcavalas. Quem o manda vir é aquela organização que localmente adoptou o nome de Vianapolis, sucursal da Polis, invenção política nacional para aproveitar sobras que vêm do tempo da Expo e dos estádios de futebol desnecessários e às moscas. Antes de a baptizarem com o elegante nome latino houve até quem lhe quisesse chamar SDR, Sociedade do “Deixa o Resto”.

Obras conhecidas das polis locais são os passadiços de Arouca e da Lagoa de Santo André e aquela horrorosa espécie de caixotes e contentores de cimento com que nas praias da Costa da Caparica substituíram no areal restaurantes e esplanadas, em particular a saudosa Carolina do Aires, que era um encantador “chalet” de madeira.

A Polis é uma espécie de Protecção Civil. Alberga boys e girls que vão restando das câmaras, das empresas autárquicas e dos ministérios. Em Viana do Castelo até parece ter feito um bom trabalho no alisamento da zona das ribeiras. Mas a destruição do Coutinho, ainda que subestabelecida a uma empresa exterior, será a maior obra da Polis a nível nacional, apesar de não ser através da espectacular implosão, desejada pelo Sr. Sócrates ainda a Ordem não tinha declarado que ele não era engenheiro, e tinha ele visto o engº Belmiro de Azevedo a deitar abaixo os hotéis da Torralta, em Tróia, para fazer um casino.

O Coutinho resistiu a Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates, Passos Coelho, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva, mais a tropa fandanga de ministros, secretários de estado, assessores, juízes, advogados, engenheiros e autarcas. É muito, para um prédio só.

Até por isto o Coutinho merece um indulto de Marcelo Rebelo de Sousa e um “face lifting” de António Costa, sendo este exercício estético para que a Câmara e a Vianapolis não sejam prejudicadas. Quero eu dizer: em vez de ganharem dinheiro a deitá-lo abaixo, arrebitem o Coutinho, que também rende algum.

Podiam até pedir ao Dr. Defensor Moura, que morou lá e não conseguiu assinar a certidão de óbito, que lhe receitasse uma dieta e algum exercício ligeiro próprio para quem nasceu legal e viveu sempre saudável, sem fazer mal a ninguém, até ser rodeado pelas negociatas e cair à mercê das associações de amigalhaços que todos conhecemos de ginjeira.

Em Junho de 2017, uma torre de apartamentos com 24 pisos ardeu em Londres, matando 79 moradores. Provou-se ser revestido de materiais inflamáveis resultantes da conservação a que a autarquia procedera. Hoje, a torre está ainda a ser reparada e ninguém a quis abater, apesar de construída numa cidade plana e de casas baixas. Mais: as autoridades da cidade resolveram verificar as outras construções a seu cargo, no que resultou terem descoberto que mais 11 torres de 20 e tal andares necessitam de ser reparadas para a eliminação de materiais perigosos. E estão a fazê-lo. Ninguém falou, nem fala, em derrubar uma única destas torres, tão legais e ainda maiores do que o Coutinho. Mas isto ocorre numa das maiores cidades do mundo, grande capital europeia dum país rico, poderoso e educado, onde para estética e cultura basta falar da National Gallery, da Tate Gallery, do National Theatre e do Covent Garden.

Com a procura de tanto pessoal lusitano para os hospitais, os ingleses bem podiam importar o Dr. Defensor Moura e se o proibissem de assobiar no hospital, ele podia entreter-se a deitar torres abaixo, como fez em Viana, até o internarem ou devolverem à procedência.

A minha esperança reside nos Falcões Peregrinos e, graças a estes, no PAN. Por diversos motivos, a começar por ser o partido dos animais e da natureza, mas também pela sua posição quanto à lei do financiamento dos partidos e acabando na ninhada de falcões peregrinos que fazem casa no Coutinho e que são uma espécie ultra protegida em toda a Europa por ser rara e se encontrar em vias de extinção.

O falcão peregrino é uma das últimas esperanças do Coutinho, porque de moradores, sejam eles inquilinos ou senhorios, velhos doentes ou crianças risonhas, ninguém quer saber.

N.D. - Outros artigos relacionados: 

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Autor:

Joaquim Letria
Janeiro 5, 2018

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