A “Oração de Traficante” revela ligações do tráfico com Igrejas Evangélicas no Rio de Janeiro

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Francisco Alves Sobrinho

Jornalista

Natal, Rio Grande do Norte, Brasil

Os acontecimentos registrados nos últimos anos sobre relações conturbadas nas comunidades periféricas no Rio de Janeiro, os conflitos entre minorias evangélicas, as intolerâncias religiosas gerando perseguições e até expulsões de seguidores de religiões de matriz africana, tudo isso são ingredientes de um desafio ao entendimento de questões cada vez mais intrigantes e preocupantes.

 

Esta etnografia entrelaça os fios da história, a memória social, a vivência de moradores e sua própria convivência para caracterizar um conjunto de transformações em favelas cariocas. Nestes territórios, onde, no passado, o catolicismo era dominante e agora parecia não mais se abalar com a presença de religiões afro-brasileiras,  tendo,  pelo menos aparentemente, superado as divergências e conflitos havidos no período colonial, hoje o pentecostalismo se alastra velozmente e se diversifica, dificultando as análises sobre seus efeitos e desdobramentos.

É nesta atmosfera que se debruça a socióloga e pesquisadora Christina Vital da Cunha, no livro “Oração de Traficantes” (Ed. Garamond, 2017), mostrando o que vem ocorrendo em favelas do Rio de Janeiro com a aproximação cada vez maior e mais intensa entre traficantes e evangélicos pentecostais, fato que vem intensificando-se a partir de 2.000,  instituindo-se como uma espécie de  marca inicial do século XXI.

Segundo a pesquisadora e autora do livro, “trata-se de uma relação conturbada, porque há pastores que continuam resistindo aos traficantes, mas a colaboração entre uns e outros tem ocorrido por um motivo forte: traficantes e religiosos da teologia da prosperidade gostam muito de dinheiro.”

Tanto que, disse ela: “a partir de um determinado momento os traficantes passaram a financiar cultos evangélicos ao ar livre e a pagar cachês de artistas famosos para se apresentarem em show gospel nas favelas”.  E os chefões do tráfico, certamente alegrando os pastores dessas igrejas, também pagam bom dízimo às igrejas.

Em entrevista à G1, ela disse: “Os traficantes gostam de dinheiro e atuam na vida do crime, onde rola muito dinheiro.  E os evangélicos não negam o dinheiro.  Então, a passagem da vida do crime para a vida moral não implica abrir mão do que conseguiu. Todo aquele dinheiro vai ser purificado. O mundo é uma batalha, mas, por outro lado,  não precisa se recusar o dinheiro.”

Sobre a questão de atuação e valores atuais revelados por católicos e evangélicos, disse que “os católicos dizem: no catolicismo, a gente não deve buscar bens na terra e deve privilegiar coisas do céu. Os evangélicos dizem: não, aqui também. Mostrar dinheiro é ima forma de mostrar a graça de Deus na vida”.

Ela disse que traficantes e evangélicos têm expulsado de favelas os seguidores de religiões de matriz africana. Acrescentou que, ao menos nas favelas que visitou durante anos para escrever o livro, a expulsão ocorre mais por conta dos evangélicos do que dos traficantes, acrescentando que, por parte dos evangélicos em relação aos cultos afro-brasileiros: ”Há uma identificação de que esses religiosos são moralmente inferiores e ligados ao mal”.