As operações militares em Melgaço e a prisão do Vigário de Cubalhão (Melgaço, 1827)

Valter Alves

Valter Alves

Professor

Após a revolta de 1820, que implantou o liberalismo em Portugal, o país conheceu um longo período de instabilidade política, ditado pela oposição entre as fações liberais e as absolutistas e conservadoras. A monarquia constitucional teve dificuldades em se implantar, em parte devido às mentalidades enraizadas, que se opunham vivamente às mudanças jurídicas necessárias à instituição de uma nova ordem social, política e económica.

 

 Melgaço

Em Melgaço, foi uma época de anarquia e insegurança em que os montes serviam de refúgio a bandos de guerrilheiros fieis à causa absolutista e os caminhos e as terras mais altas eram batidos constantemente por soldado leais à causa liberal. Numa publicação da época, o “Imparcial”, de 1827 encontramos provas dos tempos conturbados que se viviam no concelho. Num ofício do Capitão de Infantaria António Manuel de Meireles, este dá conta das operações militares que tem levado a cabo nas terras melgacenses e serras dos Arcos de Valdevez com vista a capturar os combatentes afetos à causa absolutista que se escondiam nas serras de Melgaço ou então fugiam para a Galiza pela raia seca. Numa destas operações, foi preso o Vigário de Cubalhão já que foi apreendido um documento enviado a este pelo Pároco de Lamas de Mouro com vista à angariação de homens nestas paróquias e em Castro Laboreiro para participarem numa revolta contra os soldados fieis ao rei.

“Os dois ofícios abaixo transcritos instruiram cabalmente os nossos leitores dos acontecimentos últimos em S. Gregório, e na raia seca. Eles patenteiam o denodo e valor das nossas tropas, os bem merecidos louvores que merece dos bons portugueses o ativo e bravo José de Caldas Ozório, Tenente de Infantaria 21 e o bem que igualmente se conduziu o Capitão António Manoel de Meirelles, do mesmo regimento:

 

Exmo. Sr. - Tendo-me recolhido da diligência de que por Vossa Excelência fiu encarregado, levo ao seu conhecimento todos os factos que ocorreram durante a minha digressão, que são os seguintes: Chegando à vila dos Arcos no dia 9  do corrente, encontrei ali 90 homens dos regimentos de Infantaria 3, 9 e Caçadores 12, que tinham sido mandados pelo Exmo. General desta província para o mesmo fim a que eu ia. E como visse que com a chegada daquela tropa se tinham feito públicos os movimentos que se pretendiam fazer sobre as guerrilhas rebeldes. Para ver se podia remediar este mal e conseguia surpreendê-los, ordenei imediatamente aos soldados da 21 que tinham ficado em Coura que avançassem naquela noite para os Arcos; e ao Tenente Caldas, que estava em Melgaço, que marchasse na madrugada dos dia 10 sobre o lugar da Peneda, e atacasse uma partida que ali estava e era capitaneada pelo Tenente de Veteranos de Lindoso, Francisco de Vasconcelos.

No mesmo dia 10, marchei eu para Soajo, aonde tive aviso que o Tenente Caldas tinha batido e dispersado os guerrilhas, fazendo-lhes 4 prisioneiros, e tomando-lhes uma égua com toda a bagagem e correspondência do Comandante e como tivesse igualmente notícia de que a tal guerrilha se estava de novo reunindo em um monte nas imediações do Tibo, marchei no dia 11 para os perseguir e acabarmos a precipitada fuga em que se puseram. Logo que eu me aproximei, e a densidade do monte por onde fugiram, frustaram os meus intentos, e a pacotilha dos ladrões se evadiu.

No dia 12, pus-me em marcha para S. Gregório, e ao meio dia fui atacado em Alcobaça por outra partida comandada pelo Capitão Velozo. Mandei o Tenente Caldas que os flanquasse pela direita, e eu carreguei-os pela estrada. Mas, fugindo eles precipitadamente e em desordem, só lhes pude fazer um prisioneiro, porque o resto se refugiaram  para a Galiza, que agora está servindo de couto de ladrões, e como lá não os podia perseguir, recolhi-me naquele mesmo dia a Melgaço.

A perda dos rebeldes constou de 5 prisioneiros com as suas armas, um bacamarte, uma égua, a bagagem e correspondência do Comandante, e da gente eu eu comandava, só tive ferido um soldado do 21.

Também prendi o Vigário de Cubalhão por me ter sido entregue um ofício que o Abade de Lamas de Mouro lhe dirigia, em cujo encontrei a autorização que o traidor Marquês de Chaves mandou ao Tenente Coronel de Milícias de Braga, António de Vasconcelos Leite Pereira para que sublevasse os povos e reunisse a maior força e número de guerrilha que pudesse para se opôr às determinações do nosso legítimo Rei o senhor D. Pedro IV. Este incendiário papel tem sido espalhado e afixado nas freguesias de Castro Laboreiro e suas imediações pelos párocos dos mesmos como Vossa Excelência verá no ofício do Encomendado do Crasto, que junto lhe remeto.

Se bem que toda a tropa que me acompanhou se portou com o denodo e brio que tem todos os leais portugueses, devo contudo particularizar o Tenente José de Caldas pela atividade e zelo com que desempenhou todas as comissões de que o encarreguei.

Deus guarde a Vossa Excelência.

Valença, 15 de Março de 1827.

 

Ill.mo e Ex.mo Sr José Maria de Moura - António Manuel de Meireles, Capitão da 21 (Infantaria)". 
Num outro oficio, podemos ler "Ex-mo Sr. - Tendo me recolhido da diligência de que Vossa Excelência me encarregou e ao Capitão Meireles, marchamos desta praça no dia 9, eu, em direitura à vila de Melgaço e ali recebi 80 soldados, 40 de Milícias de Vila do Conde, 20 das ditas de Viana e 20 do regimento 21. No dia 10 às 6 horas da manhã recebi do dito Capitão Meireles um ofício, datado da vila dos Arcos, aonde este referido Capitão se achava para que eu, logo que aquele recebesse, me pusesse em marcha para a Peneda e que ali me conservasse até ele chegar, tomando a estrada que daquele sítio se dirige à Galiza. Às 6 horas e meia da manhã, debaixo dessa grande tempestade me puz em marcha para o dito sítio, que consegui chegar ali à 1 hora da tarde. Logo que me fui aproximando à pequena povoação, foi vista a minha avançada pelo inimigo. Este correu a pegar nas armas e me fizeram algum fogo. Mas como eu carregasse com toda a minha tropa, que apesar do dia de água que tinha sofrido, sempre a levei reunida e os fiz desalojar das posições que tinham tomado, tanto da da ponte que eu notava mais dificultosa, sobre a qual marchei, como da outra, ao pé so santuária, por donde mandei avançar ao Tenente Rodrigo, das Milícias de Vila do Conde, que este bravo. Oficial e soldados, assim como os dos regimentos de Milícias de Viana, nada devem aos da primeira linha. No mesmo instante se pôs o inimigo em uma precipitada fuga, deixando em meu poder 4 prisioneiros, 2 armas, 2 baionetas, 3 boldriés dos ditos, 2 patronas, um traçado de refe, um bacamarte que era a arma do Comandante que os mandava, Francisco de vasconcelos, Tenente da fixe de Lindoso. Tomei uma égua, parte da bagagem deste comandante dentro de um saco, um capote, um casaco, uma fardeta de ganga azul, 2 pares de botas, 2 pares de meias, 2 lenços, um branco e outro de cor, e junto a isto uma porção de ofícios, que já estão em poder de Vossa Excelência, e mais uma mochila, com uma farda, umas calças azuis e uma camisa pertencente a um cabo de Milícias dos Arcos que anda unido a esta Comandante.

No dia seguinte às 5 da manhã fiz marchar o Tenente Rodrigo com 26 soldados pela estrada que atravessa esta áspera montanha sobre S. Bento do Cando 2 povoações da Gavieira, por me persuadir que esta seria a estrada que os soldados rebeldes escapados deviam tomar, e cortando-lhe por este modo a que vai para S. Gregório. Eu marchei com o resto e prisioneiros em direitura à povoação do Tibo, aonde mandei sair o dito Tenente que tinha mandado pela outra estrada. Neste sítio me juntei com o Capitão Meireles, que já aí estava quando eu chegava. Então lhe entreguei a gente que vinha debaixo do meu comando e só tenho a levar à respeitável presença de Vossa Excelência  digna conduta desta brava tropa. Não falando na Infantaria 21, que esta a mim me ensina a ser militar. Fiz mais um prisioneiro sobre Fiães no dia 12, de que já o referido Capitão daria parte a Vossa Excelência em razão de terem cessado as minhas funções.

Deus guarde a Vossa Excelência - Quartel de Valença, 16 de Março de 1827. Ex.mo Sr. José Maria de Moura.

 

José de Caldas Ozório, Tenente da 21.”

 

Extraído de: "Imparcial", Edição de quinta feira, 22 de Março de 1827.