Olhar o Entrudo: do Imbolc Celta ao Enterro do Pai Velho

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José Rodrigues Lima

Antropólogo

O homem da noite foi quem tudo fez.

O homem da manhã não é mais do que um escriba.

Grety

                                                                                                                            

 Os rituais do carnaval são diversificados e vão de cósmicos à inversão, e de ostentação à fertilidade.

O ciclo festivo da passagem do inverno para a primavera é denominado, ainda, no meio rural de entrudo, porém o termo mais usado é carnaval.

“No carnaval, ninguém leva a mal”.

Os signos linguísticos entrudo e carnaval estão marcados pela datação da páscoa cristã, pois assim regista o calendário.

As teses referentes à origem do carnaval podem resumir-se em quatro: vegetalista, celta, greco-romana e medieval.

O carnaval é uma celebração de todos, dos simples, dos pobres, período em que os desfavorecidos alimentam momentos de bem-estar, que vão desde a gastronomia à folia, da dança à catarse colectiva.

“No entrudo come-se tudo, de modo especial a orelheira; haja alegria que baste; haja porco na salgadeira e vinho na caneca; o entrudo é comilão se queres saber ao certo dá-me carne, vinho e pão; no entrudo ruge o pote e o prato”.

O antropólogo galego Vicente Risco registou: “Acudide! ó santo entrudo / cunha xarrina de vinho; / se queredes que este santo,/ vos prepare um maridinho”.

Do imbolc celta às festividades saturnais, passando pela celebração das festas da terra, do vinho, das florestas e das bacanais, temos um grande percurso longo e profundo, chegando até nós reminiscências de laços culturais que fazem parte da “memória da humanidade”.

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REFLEXO BRILHANTE DE CIVILIZAÇÕES

O investigador Claude Gaignebet no seu livro “El Carnaval” e Jacques Heers na obra “Festa dos Loucos e Carnaval”, introduzem-nos nos rituais que são “reflexo brilhante de civilizações e culturas onde a festa não pode ser olhada, em caso algum, independente do meio social e politico em que decorre. Ela dá com efeito, testemunho de preocupações, de ambições e relações de força”.

O antropólogo Caro Baroja autor do livro “El Carnaval”, verdadeira bíblia deste ciclo festivo, escreveu que "“quando o homem acreditou, de uma forma ou de outra, que a sua vida estava submetida a forças sobrenaturais, surgiu o carnaval”.

O mesmo investigador assinala que o “carnaval merece respeito, estudo e análise, não só como fonte de artes plásticas, mas também musicais.

A obra “Festividades Cíclicas em Portugal” de Ernesto Veiga de Oliveira, introduz-nos no entrudo e nos manjares cerimoniais deste período.

Não devemos omitir uma referência ao autor Frederico Cocho e seu livro “O Carnaval en Galicia”, bem como ao antropólogo José Ramom Mariño Ferro com a obra “O Entroido ou os Praceres da Carne”.

A celebração do entrudo/carnaval no Lindoso, Ponte da Barca, atinge o auge com rituais à volta da comemoração do Enterro do pai velho, onde se sintetizam dados culturais de um tempo longo e profundo, revelando uma continuidade cultural do Imbolc Celta do período neolítico.

No Alto Minho para além do enterro do pai velho acontecem, ainda, outras manifestações carnavalescas sendo de citar a “Dança dos Carpinteiros”, em Gandra, e as “Mecadas”, em Verdoeijo, ambas no concelho de Valença.

Temos necessidade de “olhar para o futuro do passado”, de que nos falava Fernando Pessoa, neste Ano Europeu do Património Cultural.

 

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DEITAR FORA O INVERNO

 Mircea Eliade mencionando um texto do século VIII, afirma que as populações alemãs “in mense Februario hibernum credi expellere”, que tem a seguinte tradução: “no mês de Fevereiro deve-se deitar fora o Inverno”.

De acordo com J. Heers, o Carnaval começou por ser uma procissão como tantas outras, uma dança de primavera que, quase de certeza, recuperou antigas memórias ligadas aos cultos pagãos de outrora, dos deuses campestres e das forças da natureza. Alguns autores não hesitam em evocar, com a maior naturalidade, a tradição das Bacanais, das festas da terra, do vinho e das florestas. Sublinham-no por interpretação etimológica ao fazer derivar directamente a palavra do latim do carro em forma de navio, “currus navalis”, que ilustrava as procissões.

O Carnaval como todas as festas profanas ou religiosas, sem dúvida de inspiração muito antiga ou de impregnação cristã, apresenta numerosos espectáculos públicos, reflexos espontâneos de uma civilização, referências preciosas para o conhecimento de uma cultura.

 

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O IMBOLC CELTA

As teses referentes à origem do Carnaval podem ser sintetizadas em quatro: vegetalista, celta, greco-romana e medievalista.

A tese celta leva-nos a registar alguns dados. Assim, E. Powell sublinha que os celtas acreditavam em poderes mágicos que envolviam todos os aspectos da vida e do ambiente. O ano celta achava-se certamente, dividido em duas estações, quente e fria, sendo os períodos de transição marcados por quatro festas: Samain, Beltaine, Lugnasad e Imbolc.

No início da estação clara, Beltaine, celebrava-se a festa do deus Lug. Era a data das grandes assembleias druídicas, em que se faziam fogueiras cerimoniais.

No primeiro de Fevereiro tinha lugar a festa de purificação do fim do inverno, o IMBOLC. Antigamente explicavam-na como sendo o começo da lactação das ovelhas. A festividade foi substituída pela festa cristã de Santa Brígida, seguida pela Festa das Candeias, como explica E. Powell, H. Hubert e F. le Roux e J. Guyonvarc’h.

O Imbolc na Irlanda é celebrado desde o período neolítico.

A festividade é mencionada em algumas das primeiras literaturas e há testemunhos de que tenha sido uma data importante desde os tempos antigos para os povos celtas.

Embora alguns destes costumes se tenham perdido no século XX, a tradição do Imbolc é observada em vários lugares, sendo considerada como um significativo evento cultural.

O investigador C. Gaignebet, autor do livro “Le Carnaval. Essais de mytologie populaire” (1974) sustenta: “há pois motivo para perguntar porque é que um conjunto de ritos indoeuropeus, as purificações no início de Fevereiro conservam-se, por ventura inseridas nas festas celtas, especialmente no Imbolc”.

Sem pretendermos fazer doutrina não será que nos rituais do carnaval, e mesmo nas comemorações do enterro do Pai Velho, não se conjugam reminiscências ancestrais dos celtas? É de referir que no Lindoso há bastantes marcas culturais dos castrejos.

Devemos referir que Mircea Eliade, mencionando um texto do século VIII, afirma que as populações alemãs “in mense Februario hibernum credi expellere”, que tem a seguinte tradução: “no mês de Fevereiro deve-se deitar fora o Inverno”.

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O ENTERRO DO PAI VELHO

As festividades carnavalescas no Lindoso, aldeia do concelho da Ponte da Barca, celebrizada pela sua história e respectiva barragem premiada, revestem-se de particularidades, que lhes concedem características do Carnaval da tradição portuguesa.

Existe uma sabedoria estratégica que passa pela escolha dos carros de tracção animal, do gado, pelo jogo das campainhas, pelos jugos, pelos enfeites, pelas cantigas, pelos tocadores de concertina, pelo horário dos cortejos, pelo trajecto definido, pelos bailes, pelas dádivas comestíveis durante os desfiles, pelos "barredouros", pelos disfarces, pela choradeira na queima do Pai Velho, pelo testamento onde constam as ofertas do falecido, pelas referências de índole social e pela ocultação da escultura simbólica, como autêntico "churinga" de povos australianos.

As festividades do Enterro do Pai Velho, que "apesar de não ter festeiros, sempre tem festa", são consideradas as mais típicas da povoação, e podemos dizer, únicas no norte do país.

Trata-se de uma vivência ancestral, que contribui expressivamente para a "coesão social da aldeia", e para revigorar a identidade colectiva de uma povoação histórica e tradicional, que mantém vivências comunitárias.

“O carnaval é nosso e o poder aqui não manda”.

O cortejo, para além de outros elementos, é constituído por carros adornados, "simbólicos e chiadouros", um significando o inverno e outro a primavera, puxados pelo melhor gado da aldeia, belamente engalanado, sendo um deles o do "Pai Velho", e o outro o "Carro das Ervas".

O largo junto do Castelo do Lindoso, mesmo ao lado do conjunto dos espigueiros e a eira comum, é o espaço privilegiado onde se desenrolam as importantes cerimónias anuais de transição, do ciclo do Inverno, frio e estéril, para o ciclo da Primavera, mais quente e fértil, e que fazem parte do "inconsciente colectivo".

           

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CLIMAX DO RITUAL COLETIVO

Perto da meia-noite da terça feira de entrudo, o cerimonial do “Enterro do pai Velho” atinge o ponto mais alto.

O triduo do reinado do Pai Velho vai atingir o clímax do ritual colectivo. Tudo está previsto. A curiosidade é imensa, e do frio da noite ninguém se retira.

Após lamentos, choradeira, ruido cerimonial, “p charivari”, violação de fronteiras,  suspensão e inversão de papeis, avista-se um género de cortejo litúrgico com participantes vestindo de branco e transportando velas acesas. Elas por vezes aparecem com a cabeça coberta.

No inicio do “desfile litúrgico” surgem uns paus formando uma cruz tosca, e no final, uma figura humana simulando um oficiante.

O choro aumenta de intensidade, ouvindo-se vozes de crianças misturadas com vozes fortes de adultos: “Adeus pai Velho, eras um bom Pai…” e outras frases comoventes.

O oficiente cumpre com os rituais. O choro é contagiante. Atinge-se o auge do ritual colectivo na queima de paus, de ervas e enfeites dos carros dos cortejos, juntamente com o corpo empalhado do Pai Velho. A fogueira toma grandes proporções à semelhança do “fogo sagrado” de alguns povos, como que apelando ao sol para que venha com mais vitalidade na primavera.

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FASE OCULTA

 O busto do Pai Velho, de madeira autóctone, como autentico churinga das tribos dos Arunta, dos Loritja e de outros da Austrália Central, será guardado piedosamente, em lugar de paz, e fora dos olhares estranhos.

Drante o ano dos trabalhos e dos dias, a comunidade parece esquecer a escultura simbólica do Pai Velho.

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A FOGUEIRA SIMBÓLICA

O grande investigador e filósofo das religiões J. Frazer, na sua notável obra “RAMA DOURADA”, dedica um capítulo aos festivais ígneos. Afirma que em quase toda a Europa “a crença que o fogo promove o crescimento dos meses, o bem-estar dos homens e dos animais, quer estimulando-os positivamente quer evitando os perigos e as calamidades”.

Refere que os celtas tinham festivais ígneos, queimando imagens cobertas de ervas, no meio das quais os druidas encerravam vítimas.

W.Mannhart  interpreta o costume de queimar as vítimas como uma cerimónia mágica com a intenção de assegurar a luz solar suficiente para as colheitas, levando-nos a concluir a importância agrária destes rituais.

É de sublinhar a grande festa “Beltaine" (fogo de Bel), no primeiro de Maio, em honra do Deus Lug, sob aparência da luz. Era a data das assembleias druidas, em que se faziam grandes fogueiras cerimoniais.

Parece-nos que a grande fogueira que no Lindoso queima o corpo empalhado do Pai Velho, os enfeites e as ervas, tem um fundo celta.

Aliás, é de acrescentar que inúmeros ritos de purificação pelo fogo, geralmente ritos de passagem, são característicos das comunidades agrárias, e simbolizam os incêndios dos campos que se adornam, depois, com um manto verde da natureza viva, de acordo com J.Chevalier.

O fogo é, acima de tudo, o motor de regeneração e simboliza a acção fecundante.

O Padre António Vieira salienta nos “Sermões” que “o maior”, o mais nobre e o mais nobre escondido tesouro do universo é o quarto elemento, o fogo.

É crença popular que o fogo e fumo têm a virtude de purificar os campos e os animais, e livrar os homens da influência dos maus espíritos.

 

REGRESSO ÀS ORIGENS

Com os rituais do Enterro do Pai Velho, fruto de um imaginário longínquo, a povoação do Lindoso, no Entrudo, concretiza com força “as ideias de regeneração periódica da ordem social “, marcando o fim do ciclo Invernal e anunciando um novo ciclo natural, a primavera".

O Enterro do Pai Velho, também aqui deve ser visto como um “ato de regeneração universal do tempo”, de acordo com M.Bakhtine, Bloch e Parry.

Participando no tríduo carnavalesco do enterro do Pai Velho, fazemos um regresso às origens.