O Natal da Emilinha

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Paula Teixeira de Queiroz

Escritora

A Emilinha tinha muitos primos na capital, gente de outra cepa, não tinham ficado a remoer culpas e mágoas na província, os pais tinham procurado um ambiente anónimo para educar os filhos, não a pensar neles, mas por acaso, por necessidade, para uma vida mais desafogada, o que é certo é que os beneficiou a eles, aos filhos, aos primos da Emilinha.

Nasceram com outros horizontes que não fosse o quintal das dálias e das tronchudas na traseira da casa encavalitada na colina que dava para o rio, a igreja Matriz como Norte e destino. Pois foi, era o primo que casou com a inglesa, foi viver para Londres e trabalhou com os frangos, nada que lhe interessasse, também tinha frangos no seu quintal, mas sempre fora para Londres, vira mundo, ah, sim, e até tinha furado a greve do lixo na década de oitenta, a Emilinha não se lembrava exactamente do ano, nem tinha de se lembrar, mas quando aquilo dos frangos não resultou e voltou para o sofá com as molas a furarem-lhe as costas, a fazer apostas nos cavalos com a sogra, um cunhado da mulher pegou nele por um braço e meteu-o no lixo, quer dizer, não no balde do lixo, mas a recolher o lixo que os grevistas deixaram espalhado a feder e a criar ratos ainda mais gordos na grande metrópole já infectada. De madrugada, o cunhado recolhia-o a ele e outros desgraçados sem emprego e andavam a furar a greve com os grevistas na sua alçada. Sentia-se tão miserável que nem pensava no que estava a fazer: apanhar sacos de lixo no meio de ratazanas gordas que aproveitaram logo a oportunidade. Pois, ratazanas que se aproveitam da miséria dos outros há em todos os lados, países ricos e lugarejos como a terra da Emilinha.
Ele era fraquinho, tinha asma, os sacos eram tão pesados, enquanto os colegas que eram recrutados nas docas, habituados à estiva, os levavam na ponta das manápulas rugosas, ásperas, habituadas ao peso e ao murro, ele fazia um esforço sobre humano para arrastar o saco mais pequeno que pudesse vislumbrar. A princípio riam-se dele mas vendo a sua determinação aceitaram-no como mascote e ajudavam-no a aliviar a impotência e a raiva, muitas vezes as lágrimas. É que não podia aparecer em casa sem a meia dúzia de libras ao fim do dia, nem negar-se ao apelo do cunhado carrancudo e corpulento como um urso.

 

Ainda por cima o Natal aproximava-se, o que ele queria mesmo era estar na casa da prima, a Emilinha, que vivia no norte de Portugal, tinha muitos achaques, mas nada se comparava ao aconchego das suas rabanadas, aos bolinhos de jerimú, aos formigos, à aletria, ele era lambão, sonhava com as sobremesas, mas o bacalhau e polvo cozidos, as batatas e as couves da sua horta, que manjar. No dia de Natal o peru recheado bem assado com castanhas e batatinhas, o arroz gordo com chouriço caseiro que ela desencantava lá no talho da Valeta onde morava.

 

Carrega saco, atira para o carro do lixo, volta a carregar saco e a atirar para o carro do lixo, as mãos em sangue, nem as luvas lhe aliviavam as bolhas, o sangue misturado com o lixo, os olhos verdes por quem a inglesa se perdera marejados de lágrimas, ah, é o frio, não estou a chorar, não senhor, o que pensam vocês, um português não chora, nós já demos mundos ao mundo como cantava o poeta. Qual poeta, pá, deixa-te de mariquices e carrega o saco, cuidado com o aganão, ainda te morde o pé delicado. Fujam, vêm aí os grevistas, o piquete d vigilância aos fura greves, fujam, raio de vida, tantas mulheres doces e dengosas em Portugal e fora seguir uma inglesa furiosa por ele fazer umas apostazitas em cavalos, sorte de cão.

 

Enquanto fugia ia sentindo o cheiro do peru estaladiço, do arroz de chouriço, a lareira que espalhava calor pela cozinha espaçosa, o coração da casa, onde assentava um pote de ferro de água num tripé, para o que desse e viesse.

 

Natal era na casa da Emilinha, o resto era conversa. Escondido num beco por trás dum monte de lixo, rodeado de ratazanas, assistia a mais uma cena de pancadaria entre os colegas e os grevistas enquanto o perfume aveludado da sopa de tronchuda o transportava para o seio da família, o seio da Emilinha.

 

Natal era a Emilinha.

Autor:

Paula Teixeira de Queiroz
Janeiro 5, 2018