O fim do ano da Emilinha

Paula Teixeira de Queiroz perfil

Paula Teixeira de Queiroz

Escritora

O fim do ano aproximava-se e a enxaqueca da Emilinha aumentava na mesma proporção.

 

Era como uma touca nublada que lhe caía pela cabeça abaixo, pelo corpo, e lhe ia tolhendo os membros até ficar quase paralisada. Primeiro eram os olhos, começava a ver tudo baço, de um cinzento de rato. Depois tinha dificuldade em respirar, o ar não lhe passava de uma vez, tinha de fazer um esforço para inalar e cheirava-lhe a ovos podres. E a fala, a fala ficava entaramelada e não dizia coisa com coisa.

Mas ouvia-as, elas, as vizinhas, nos preparativos. Antes ficasse completamente surda, se Deus fosse misericordioso tinha-a feito mouca como um soco, mas tinha a orelha tão guicha que ouvia tudo, até o pé ante pé do Leonardo quando se embebedava e não queria acordar a Cidália, esforço em vão, que ela mal pressentia o cheiro a álcool, lhe  arremessava o chinelo felpudo onde metia o chaveiro e eram muitas as vezes em que a bebedeira lhe passava com a cabeça a sangrar.

A Cidália era terrível, a Emilinha fazia-se de valente mas por dentro tinha-lhe um medo, não que mostrasse, mas tinha-lhe terror, que as fúrias dela eram conhecidas pela Valeta inteira.

A passagem de ano da Emilinha ainda era mais triste por causa da Cidália, essa bruxa que apregoava a todos que seria a Rainha da Noite, no baile da Valeta, animado pelo conjunto do Zé da Fruta, mais conhecido pelo Zé dos Tomates.

A vizinha logo pela manhã ia para o cabeleireiro, o mais famoso da vila, no centro, onde as senhoras finas também iam. Mas até ele morria de medo dela e sabia que no último dia do ano tinha de lhe fazer um penteado que durasse até de manhã. Tinha um creme especial que lhe vinha de França por linhas travessas, uma espécie de cola, que mantinha os penteados imaculados até quinze dias. Quanto mais os dias passavam mais o cabelo se empertigava e não fora a comichão podia durar um ano.

E as unhas? Desde que chegara a brasileira nordestina, de Campinas, uma cidadezinha perto de Recife, que também trouxera um produto a que chamavam “gelinho” que as unhas da Cidália faziam concorrência às do seu gato, que assustado, as arrepiava. Mas a Emilinha, sem coragem para usar umas unhas daquelas, admirava-as: compridas, fortes, endurecidas com o tal produto, tinha ela visto como a Cidália rasgara a cara da Tina Lampeira num dia em que ousara fazer-lhe frente e, no baile de fim do ano, dançara como uma borboleta inspirada, roubando-lhe o título de Rainha da Noite. Ai que desgraça fora, a Cidália soltara um urro selvagem e atirara-se raivosa, as narinas frementes, o cabelo com cola eriçado, o vestido que se prendera ao prego da cadeira rasgado a ver-se-lhe a cinta do século passado, e o sangue a jorrar pela cara da Tina Lampeira, uns regos profundos dos cortes afiados das unhas da mulher em fúria.

 

Pronto, divagações, que não eram mais do que isso, divagações, a desviá-la do assunto primordial: a passagem de ano que lhe dava tonturas, cegueira, falta de ar e lhe coarctava a palavra. Pobre Emilinha.

 

Quando os pais eram vivos passavam a noite em casa a ver televisão, o pai abria uma garrafa de espumante da Bairrada, a mãe aprimorava os petiscos e iam para o quintal ouvir a música do baile, que eles eram uma família modesta e pia, nada de festas, aconselhava a madrinha Emília, não fosse ela mudar de ideias e desviar a casinha e o quintal prometidos à Emilinha.

Ela batia o pé discretamente ao som da música ligeira, das canções brejeiras, o coração saltava-lhe com força e dava a vida por um pezinho de dança, mas o olhar gélido da mãe aquietava-lhe o pé maroto e o ritmo ia-se acalmando acabando por morrer sem combustão.

Memórias gastas, pardas, morrinhentas, até na casa do senhor abade festejavam a passagem de ano, sabia-o pela criada que lhe contava tudo o que lá se passava. E o Chico Manco, seguido dum bando de moços, lançava foguetes no monte que iam buscar a Espanha, tudo no maior segredo que a GNR andava à coca. Que eles saber, sabiam, mas não podiam provar. A passagem de ano é um momento, o que é um momento numa vida, filosofava o comandante.

 

Um ano o primo de Inglaterra escrevera-lhe a convidá-la para lá ir ter com eles, ele, a mulher Judy, a sogra que apostava nos cavalos, e o cunhado que o metera no lixo, mas, mas… e ela ia sozinha de avião sem saber uma palavra de inglês?! Se ainda tivesse umas unhas e um penteado como a Cidália…

 

Talvez um dia, talvez, quem sabe, havia de surpreendê-los a todos.

Autor:

Paula Teixeira de Queiroz
Janeiro 11, 2018

Partilhar

Do mesmo autor...