MEMÓRIA ALEGRE (do Minho)

Albino Kilombo

Operário em Construção

A entusiasmada adesão do director do Minho Digital, jornalista Manso Preto, à minha proposta de criar este espaço de edição de textos meus ─ MEMÓRIA ALEGRE ─, coloca-me sob a assustadora responsabilidade de vencer a preguiça e a relutância em publicar o que escrevo; como o velho Diogo do Couto, que teimava em vir a ser conhecido por um dos que não ganhava hábito, neste tempo de abundância de escritores, quem sabe não fico conhecido por nada literário editar.

 

Assim, dou também resposta ao repto de um raríssimo poeta da nossa língua ─ Oh Albino!, você tem que escrever isso ─, lançado quando, “entre o riso e o vinho”, se deleitava com o anedotário, que sem grande graça nem dom particular lhe contava de gente do nosso povo que ainda conheci. Por resposta ao desafio nasceram os textos que aqui irei publicando, marcados por uma prosódia e sintaxe rançosa, almejando captar ambientes de antanho, rasgos de graça, brejeirice, sarcasmo, tantas vezes pranto, que o povo nos oferece com estórias que nem precisam de seroar às lareiras para se solidificarem como traços indeléveis de uma identidade regional e portuguesa.

 

As estórias têm a marca da minha memónica regional, cultural e humana de um tempo que houve, mesmo que imaginado, a que a revolução social que a Revolução de Abril apressou, veio pôr fim. Não tenho por desejo historiar a sociedade minhota, compor obra de costumes, rituais, parlatório, modas e tradições: importa-me dar voz às vozes da memória que me habitam, almagrar a escrita do húmus humano de que me alimento. Se parecer que procuro matar saudades de gente que houve, vou de encontro ao que manifestou José Feliciano de Castilho, in PREFAÇÂO de a ARTE DE AMAR, de Publio Ovidio Nasão, que seu irmão António traduziu e publicou em 1862: “O gosto do que foi, todas as edades o-sentiram, e o-nutriram, pois,(...), tanto nas ficções como na vida, a imaginação se-compraz em ingolfar-se no passado, por mais ávida que aspire ao porvir”.

 

O acentuado uso nos textos de um acervo lexical marcadamente minhoto ─ que se pode esperar de um apaixonada filho do Minho? - não impedirá de grafar um ou outro regionalismo alheio ao espaço mnemónico, sempre que me ocorra na fluência da escrita; não me darei ao purismo de a golpe de foice roçadora desbastar o texto desses pés-de-mato, que o não são, até porque as variantes de produção lexical e fonética não são nunca compartimentos estanques, não sujeitas a corruptela. A língua viaja com os homens, e assim andarilha vai sempre adquirindo novas tonalidades, novos sentidos. Não sendo de se aceitar anacronismo, assumo na escrita a herança lexical que mora em mim, sem, como atrás aflorei, me dar à canseira do purismo linguístico de uma dada região. Fujo do purismo como o diabo da cruz, para que não me aconteça o que se passou com Lisipo (Satiricon, Petrônio): “de tal modo absorvido pelo perfeito polimento de uma estátua, que sucumbiu por falta de alimento”. Para polido basta o esforço de procurar expressões e frases educadas para transcrever o que as personagens disseram em língua despudorada.

 

No que ao uso da ortografia se refere, opto por seguir a linha editorial do Minho Digital, isto é, respeitar a norma portuguesa anterior ao AO90 em vigor, pese embora a tentação de me meter pelos extraordinários caminhos dos que até ao delir do séc. XIX, ainda sem uma ortografia oficial, escreviam em bom português. A este respeito muito tinha que argumentar a favor ou contra esta confusão luso-tropical da ortografia, bastando por ora assumir que sou acérrimo defensor de um amplo acordo ortográfico, que envolvesse e levasse em conta todas as variantes linguísticas e ortográficas que se vão produzindo nos espaços dos países que tem a língua portuguesa por oficial. Para mim tenho por questão primacial esta: queremos que a língua portuguesa que escrevemos - a língua falada é outra e paralela questão - se restrinja a ser uma língua de identidade, como por exemplo o basco, o catalão, o flamengo, o finlandês, etc, etc, ou, pelo contrário, se afirme como língua de expansão e consolidação? Se quisermos uma língua vs ortografia amarrada à tradição fonética, ao étimo, ao passado ortográfico, fique como estava até à entrada em vigor do AO90, ou até, para melhor, tente-se recuperar o que já se esbanjou. Se, pelo contrário, almejamos uma língua que se universaliza e consolida como herdeira orgulhosa da que deu mundos ao mundo, não vejo como contornar a necessidade de um acordo ortográfico amplo, entre todos os países que tem a língua portuguesa por oficial. Se assim não formos capazes de fazer, num futuro não muito distante, a língua que falamos e escrevemos em Portugal, estará tão afastado dos filhos linguísticos que gerou que mãe e filhos não dialogarão entre si. Ignorar a vitalidade e a importância da demografia como determinante no processo linguístico, parece-me um erro crasso, que nem o passado, por mais glorioso que haja sido, justifica.

 

Alinhado então com a ortografia assumida pelo Minho Digital, é graças ao formato digital deste semanário que é possível superar as dificuldades que hoje se colocam a quem queira fazer literatura através das páginas físicas de um jornal. O espaço exigido por um texto literário narrativo e as exigências comerciais de um jornal em suporte de papel colidem nos interesses, a que se acresce a dificuldade do leitor apressado de hoje se prender a longas linhas de prosa num suporte que não o tradicional livro, que ainda vai resistindo. Dificuldade que se agrava com a edição digital ─ como eu, muitos outros terão dificuldade de concentração na leitura ─, mas mesmo assim corro o risco, o que me obriga a um esforço de concisão e mutilação, de modo a reduzir os textos a um número de caracteres que suponho um leitor conseguir ler neste formato.

Para terminar, saiba o leitor que passar os olhos por estas estórias e nelas encontre ecos de memórias suas, não serem meras coincidências: são resultado do labor da escrita sobre uma memónica pessoal que, como é próprio da memória de cada indivíduo, se veste das galas da memória colectiva a que pertence.

Autor:

Albino Kilombo
Albino Kilombo
Janeiro 12, 2018

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