Duna do Caldeirão: um curso de ignorância!

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Joaquim Vasconcelos

Engenheiro Civil e Ambientalista

Um destes dias ouvi falar num contrato para a gestão da estratégia de Desenvolvimento Local de Base Comunitária (DLBC), visando potenciais projectos para a área do Polis Litoral Norte. Veio à minha memória a destruição da Duna dos Caldeirões que o mar arrasou há 2 anos (dia 3 de Fev. 2014).

Tendo em atenção que os objectivos, deste contrato assentam na promoção e valorização dos recursos diferenciadores do território, na sustentabilidade ambiental, no património e na cultura, etc., também me fez lembrar tempos mais recentes, em que os responsáveis mostravam-se interessados em fazer recargas de praias e reforçar dunas, mas que na maioria delas era desviado para projectos mais populistas que, no fundo, não iam reforçar nenhuma duna, mas sim criar condições de maior fluxo de turistas, agravando o pisoteio e a consequente erosão.

Por exemplo: a Duna dos Caldeirões, em Vila Praia de Âncora, só foi objecto de uma pequena beneficiação composta pela execução de uma reduzida estacaria de madeira e recoberta por areia; nem sequer tiveram a preocupação da sua estabilização através do enraizamento de gramíneas e outras plantas com o objectivo, no mínimo, de a fixar e até beneficiar. Nada disso foi feito, embora para a recuperação do dito cordão dunar, tivesse sido bom ser feita a plantação dessa vegetação para maior resistência à erosão eólica.

Depois, escolhidas as opções erradas, ouvimos os responsáveis atirar as culpas às alterações climáticas e referir que estão a originar problemas imprevistos. Na realidade aquelas já se fazem sentir há dezenas de anos, havendo muito boa gente a alertar aqueles que consideravam que “cimentar o litoral” é que era correcto. Agora já parecem “convertidos”… No entanto, como o povo diz, a “ocasião faz o ladrão”!... Sabendo que os responsáveis continuam a tentar enganar a “populaça”, originaram uma descrença de todos estes “ismos”, dos políticos e das políticas.

Os responsáveis com as obras realizadas procuraram empreendimentos que fizessem crer que a execução dum parque de estacionamento em terrenos do Âncora Praia ou todo o arranjo da área envolvente àquele, tinha alguma coisa a ver com a beneficiação da Duna dos Caldeirões, esqueceram-se que a dinâmica do mar pode ser compreensível, mas é impossível de se comprar ou de utilizarem dados errados sobre os seus efeitos.

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Sobre a Duna dos Caldeirões, poderão protelar a sua destruição, no entanto a não eliminação da causa da destruição daquela duna irá continuar a agravar-se e a trazer problemas de segurança aos próprios pescadores que devido ao circuito de correntes criados estão a ter problemas de assoreamento do portinho.

É esta “união de facto”, entre a Duna dos Caldeirões e o Portinho que originou no início do mês de Fevereiro a abertura de um canal provocado pela água do mar. As ameaças continuam e só não deu origem a um novo arrastamento do cordão dunar, porque não houve nenhum temporal digno desse nome.

No que diz respeito ao Portinho propriamente dito, temos de lembrar que a situação é preocupante, tendo em conta a contínua necessidade de se fazerem as dragagens para viabilizar o acesso, sem perigo dos pescadores.

Presentemente, existe uma draga que se encontra a fazer o seu trabalho há uns três meses, situação caricata e que mais uma vez nos leva a questionar a viabilidade económica deste empreendimento. Os pescadores deviam perguntar até quando é que se vão fazer as dragagens?

De facto, ninguém parece estar interessado em saber a verdade do que se está a passar. Na realidade é lamentável que os responsáveis não tenham a noção de que  as alterações climáticas não justificam tudo.

Foram as obras do Portinho que originou uma situação que poderá vir a ser dramática para os pescadores se um dia não houver dinheiro para fazer as dragagens, ou para o turismo de praia se não pararem de fazer as dragagens do portinho, pois o areal não é eterno. O ‘emagrecimento’ do areal da Gelfa só não o vê quem não quer!...

Enquanto esta gente “medir forças” com a natureza, a situação continuará a agravar-se, mesmo que aqueles que atacavam quem alertava para as consequências dos disparates que estavam a ser feitos, também já estejam a referir que esta obra foi um erro, isso não resolve nada. Na vida os erros … evitam-se!

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Mas esta “gentinha“ nem se preocupa com a dívida que vamos deixar às futuras gerações, nem com um Portinho que parece estar sempre a ser dragado, visto que a draga já se encontra lá há meses, não sei se à espera que o mar desista de o assorear ou se é um estado de oração!...