A Dorinda

Paula Teixeira de Queiroz

Paula Teixeira de Queiroz

Escritora

A Dorinda, mulher do norte a trabalhar em casas na capital, na volta dos cinquenta, andava agitada, a ansiedade cortava-lhe o ar, malditos pulmões, não conseguia respirar, dobrar o ar... Raios, iria morrer? Aquilo seria da idade, dizem que é assim, parece que se anda sempre em brasas, que o coração rebenta, até se vê o palpitar de dentro para fora... Raios, que aquilo tinha de parar.

 Sacudia os tapetes pela janela que dava para a rua, o patrão, um senhor de leis, avisado e com bons modos, advertia-a que ainda era autuada - ele é que era, homessa, que a casa era dele -, mas naquele dia sacudiu tudo o que lhe deu na veneta, até as cuecas, que eram duma marca cara, ali das lojas do centro comercial mais fino da cidade. Se lhe desse na gana até as punha a secar penduradas no pau da vassoura como uma bandeira desfraldada ao vento que vinha do rio carregado de cheiros e barulhos de gaivotas a grasnar, de barcos a trazer gente estranha de terras estranhas. Quem lhe dera partir e nunca mais ver a rua, o senhor de voz afável e cheio de leis que não a deixava pendurar roupa e sacudir tapetes das janelas da frente.

 A porta da rua bateu, o senhor tinha ido às compras, vinha carregado de sacos. Chamou-a: Ó Dorinda, chegue aqui que tenho uma coisa para si. Ora, ora, o que seria, coisa boa não seria que ela não estava habituada a prendas.

 E assim foi, trouxe-lhe uma tábua de engomar nova com uma cobertura verde aguada, parecia o rio a deslizar em dias de brisa fresca e suave.

 Deu-lhe cá uma coisa, agarrou no ferro e engomou dois cestos de roupa bem engelhada saída da máquina de secar que o tempo não estava de feição.

 Carago, que descobriu a cura para a falta de ar e as fúrias que lhe cortavam o ar: passar a ferro cestos de roupa na nova tábua de engomar, curou-lhe tudo, ah caragooo!