Deuses, Diabos, Anjos e Demónios

Armando Caldas

Armando Caldas

Médico

A nossa vida natural é carregada de mistérios, dos quais o mais relevante será talvez o próprio facto de existirmos confinados a um princípio meio e fim que não nos explica de onde viemos, para onde vamos, ou pura e simplesmente porque somos assim.

 

Se não encontramos no natural respostas suficientes para as perguntas que nem a ciência sabe ainda responder, talvez seja natural o recurso ao sobrenatural para responder a questões das quais naturalmente não encontramos resposta.

Uma dualidade recorrente nos sistemas sobrenaturais conhecidos é a dualidade entre o bem e o mal que baliza a nossa atuação terrena servindo a entidade suprema do bem ou, pelo contrário, servindo os interesses da entidade superior do mal.

Apresentando-se o mal como mais tentador por satisfazer sem pruridos os pequenos prazeres individuais, a prática do bem implica geralmente fazer gestos onde o bem comum se sobrepõe aos apetites individuais.

Para justificar o sacrifício do individual face ao coletivo e a abstenção de tudo o que é ilegal, imoral ou engorda, como canta Roberto Carlos, foram apresentados dois destinos finais após o nosso fim como resultado das opções tomadas em vida, sendo o destino dos bons e dos justos o Céu, junto de Deus, e o destino dos maus o Inferno, junto de Satanás, sendo as nossas boas ou más ações entre o nosso princípio meio e fim o passaporte para o nosso destino durante a Eternidade. Seja isso o que isso for.

Para nos guiar rumo ao Paraíso existem os anjos e para nos tentar rumo ao Inferno existem os demónios, criaturas espirituais respectivamente ao serviço de Deus e do Diabo.

 

Como recompensa das boas ações que praticou durante quatro penosos anos, Pedro Passos Coelho ambicionava naturalmente continuar a conduzir os portugueses ao Paraíso e, contrariamente às previsões baseadas na confiança em que basta ter fé para as coisas acontecerem, conseguiu merecer a superior taxa de aprovação de todos os candidatos a Primeiro-Ministro, aprovados ou não em primárias, que se apresentaram a eleições.

Quando parecia já decidido que a Pedro Passos Coelho iria suceder Pedro Passos Coelho, uma inusitada combinação parlamentar fez com que pela primeira vez no nosso país para ser Primeiro-Ministro não fosse necessário ganhar eleições, entendendo-se por ganhar eleições ser a formação política mais votada.

Apeado do que entendia ser o Céu, Pedro Passos Coelho resignou-se à espera de que o Diabo fizesse das suas e entrasse pela porta deste belo jardim beira-mar plantado, cada vez mais atulhado de turistas com disponibilidade para alavancar o crescimento e emprego.

Quase um ano depois da anunciada aparição, o Diabo teima em virar as costas aos Portugueses, se bem que de vez em quando nos atraiçoa e expele algumas sucursais do Inferno com consequências infelizmente dramáticas e à prova, seja da confiança, seja dos afectos ilustrados em “selfies”.

À espera do Diabo e do apocalipse financeiro que tarda em aparecer e que as estatísticas negam, vamos vivendo no Paraíso possível, soprado pelos anjos que se juntaram para nos livrar de outros demónios, tornando o país cada vez mais clerical, onde os seguidores do novo e o velho testamento se radicalizam e digladiam para promover a sua fé e os seus fieis, enquanto nós, simples mortais, vamos de férias e fingimos, sem acreditar, que os problemas não existem e onde, à falta de uma terra onde corra o leite e o mel, continuamos a ter uma onde subiste o futebol, Fátima e o fado do costume, se bem que em traje de banhos.

E já não é mau…

Autor:

Armando Caldas

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