Concerto de Natal inédito em Portugal é apresentado em Ponte de Lima

Na sequência da residência artística que está a decorrer em Ponte de Lima, denominada  I Encontro de Música Medieval de Ponte de Lima, será apresentado o Concerto de Natal “Na Rota do Peregrino”, com Direcção Artística de Maurício Molina e Direcção Geral de Daniela Tomaz e com a participação de Carlos Meireles, Lucía Martín-Maestro Verbo, Yenisey Gomez – Canto, Isabella Shaw – Canto e Harpa Medieval, Ana Villamayor – Harpa Medieval, Maria de Mingo Carranza – Cítola Medieval, Jakub Michl – Fídula Medieval, Carme Juncadella – Organetto, Daniela Tomaz – Flautas e Percussão Medieval e Josafat Larios – Percussão Medieval.

Neste concerto, cujo programa apresentamos de seguida, recorreu-se ao estudo e reconstrução das canções e danças interpretadas pelos peregrinos no período medieval, as quais constituíam uma importante fonte de actividade musical entre os séculos XI e XIV, numa celebração das rotas de peregrinação europeias, desde Jerusalém, Roma, Conques, Salas, Limoges, Montserrat, Canterbury e particularmente Santiago de Compostela, da qual Ponte de Lima sempre fez parte.

O repertório a apresentar será o seguinte:

O PEREGRINO MEDIEVAL

I. Começando O Caminho

Madre de Deus, ora (CSM 422)                    Alfonso X, Escorial J.b.2, fol. 325

Flavit auster flatu                                          Codex Huelgas, fol. 45r

Non sofre Santa Maria (CSM 159)               Alfonso X, Escorial J.b.2, fol. 154

 

II. Montserrat

Por razon tenno d’obedecer (CSM 113)       Alfonso X, Escorial J.b.2, fol. 119

Cuncti simus concanetes                               Anónimo, Llibre vermell de Montserrat, fol. 24

A madre de Jhesu-Cristo (CSM 302)                        Alfonso X, Escorial J.b.2, fol. 269

 

III. No Caminho a Santiago

Nembresette, Madre de Deus (CSM 421)     Alfonso X, Escorial J.b.2, fol. 325r

Non é gran cousa se sabe (CSM 26)              Alfonso X, Escorial J.b.2, fol. 59r

 

IV. Compostela

Dum pater famílias                                        Anónimo, Codex Calixtinus, fol. 222

Fazer música era uma das principais actividades dos peregrinos medievais. Músicas e danças eram interpretadas durante as rotas de peregrinação como forma de reafirmação da Fé; como entretenimento durante as tediosas horas de estrada; como adoração de cada santuário e também como forma de construção de um senso de comunidade. Entre as canções dos peregrinos, eram particularmente populares as que descreviam os milagres realizados na estrada, bem como as aventuras de outros peregrinos. Essas composições ajudavam os viajantes a antecipar – através da narrativa e do canto de comunidade – os perigos da jornada. Essas peças de repertório também serviam para dissipar o medo e promover a imaginação religiosa. O programa desta noite explora esse tipo de músicas de forma vocal e instrumental. Durante o concerto, o conjunto de composições seleccionadas levará os ouvintes a uma viagem a Compostela que começa a partir do momento em que a estrada é iniciada, continua com a visita de santuários importantes, e que levará o ouvinte para o final triunfante na derradeira visita do túmulo de São Tiago.

As Cantigas de Santa Maria de Alfonso X (século XIII) hoje interpretadas, focalizam-se nas desventuras dos peregrinos e na resolução do conflito físico-espiritual após a chegada a um santuário. Em CSM 159 “Non sofre Santa Maria”, é explicado como um pedaço de carne roubado de peregrinos foi devolvido pela Virgem no seu Santuário de Rocamadour; similarmente, em CSM 302, “A Madre de Jesu Cristo”, informa-nos de como um ladrão que roubou dinheiro de peregrinos foi punido por Santa Maria no seu Santuário de Montserrat. Em CSM 113 “Por razon tenno”, descobrimos que a Igreja desse mesmo Santuário de Montserrat, na Catalunha, foi milagrosamente salva da destruição (queda de rochas da montanha); e em CSM 26 “Non è gran cousa”, ouvimos sobre como o diabo enganou um peregrino para cortar um dos seus órgãos vitais e também de como, com a ajuda de São Tiago e o julgamento da Virgem, o diabo teve que renunciar à alma desse viajante. As formas poético-musicais da maioria das cantigas sugerem que foram cantadas e dançadas de maneira responsiva por solistas e por um grupo de pessoas: o solista cantaria as secções narrativas da peça enquanto o grupo responderia com refrões que enfatizariam a moral da história. A composição “Cuncti simus concanetes” é uma música de dança com solista e coro, encontrada no “Llibre vermell” de Montserrat, onde é indicado que seja cantada e dançada por clérigos e peregrinos fora do santuário catalão. Como todas as peças mencionadas acima (excepto para CSM 113) são canções de dança, optamos por acompanhá-las com instrumentos musicais, tal como prescrito em tratados musicais medievais e descritos na literatura da época. O concerto de hoje mostra também música instrumental que é organizada a partir de composições vocais na forma de “sequência” (versos emparelhados com a forma AA’, BB’, CC’...). Os instrumentos utilizados pelo ensemble incluem a vielle (fídula medieval), a harpa, o órgão portativo, a citola (um tipo de guitarra medieval) e diferentes instrumentos de percussão, como sinos, pandeiros e nakara. A última peça do concerto é o famoso hino dos peregrinos “Dum pater famílias”, que se encontra no Codex Calixtinus, uma composição que descreve como a chegada a Santiago é celebrada por peregrinos em diferentes idiomas. A peça é principalmente em latim com expressões de fervor religioso no que se pensa ser uma língua germânica e latim (corruptio): “Erru Santiagu, grot Santiagu, e suseia e ultreia, Deus aia nos”.

O I Encontro de Música Medieval de Ponte de Lima "Caminho Português de Santiago" é um projecto artístico pioneiro em Portugal, que procura impulsionar o tecido artístico nacional em parceria com o tecido artístico transnacional, através da criação de um Encontro Anual para o trabalho de reconstrução musical do repertório medieval, de incidência ibérica. Tem como duplo objectivo a dinamização do património intangível constituído pelas fontes musicais medievais e do património tangível que, neste caso, é o cenário da formosa Igreja Matriz de Ponte de Lima, de raiz românica.

 

Maurício Molina | director artístico

É musicólogo e intérprete dedicado à reconstrução e interpretação da música dos séculos XI, XII e XIII. É Mestre em Interpretação Histórica no Mannes College of Music (Nova Iorque) e Doutor em Musicologia Histórica na City University of New York Graduate Center. É professor convidado no Centre International de Musiques Médiévales – Université Paul Valéry de Montpellier e professor de Cultura Medieval Islâmica e Antropologia Musical e Iconografia Medieval no consórcio universitário norte-americano IES Abroad Barcelona. Em 2010 publicou “Frame Drum in the Medieval Iberian Peninsula” (Reichenberger), livro galardoado com o prémio Nicholas Besseraboff da American Musical Instrument Society como o mais distinto em organologia de 2010. O seu próximo livro, “La canción monofónica secular y religiosa en el Occidente medieval (850-1200)”, será publicado pela editora Dairea em 2018. Mauricio Molina é também director dos grupos de música medieval Magister Petrus, Ars Memorie e do Curso de Música Medieval de Besalú (Catalunha).

Daniela Tomaz | direcção geral

Inicia os seus estudos musicais em 1990 no Conservatório Regional de Gaia, estudando com Pedro Castro, Pedro Couto Soares e Pedro Sousa Silva. Em 2008 prossegue com os estudos musicais no Departamento de Música Antiga da Hogeschool voor de Kunsten Utrecht (HKU), Países Baixos, sob orientação de Heiko ter Schegget em flauta de bisel e Wilbert Hazelzet, em traverso, graduando-se em Abril de 2012 Cum Laude. É directora do Ensemble Med, um laboratório de performance de música medieval europeia, com o qual participou em diversos festivais nos Países Baixos e em Portugal, destacando o Festival Percursos da Música, em Ponte de Lima, em Julho de 2017. Dirige o projecto Raízes e Revolução, que estreou em Tbilisi e Poti (Geórgia) e participa noutros ensembles, como Rosa Gallica (FR), Capella Duriensis (PT), Ensemble Ditirambo (MX), com concertos em Portugal, França, Países Baixos e México. É também licenciada em Arquitectura pela Universidade do Porto desde 2005, tendo escrito a tese final “Arquitectura e Acústica: o Espaço Sinestético”, na qual obteve 19 valores. É consultora da Association Européenne des Conservatoires (Utrecht/Bruxelas), desde 2011 e Directora Artística na Academia de Música de Lagos desde 2012. Membro fundador do Corvo e a Raposa Associação Cultural.

O projecto é promovido pelo Município de Ponte de Lima em parceria com O Corvo e a Raposa | Associação Cultural, com produção do Teatro Diogo Bernardes e apoiado pela Fundação GDA e pelo Conselho Paroquial de Ponte de Lima para os Assuntos Económicos.

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