Carta Aberta a Paulo Maciel (Presidente da Junta de Freguesia de Santa Marta de Portuzelo)

Gilberto Santos engenheiro

Gilberto Santos

Engenheiro

Como santamartense de raiz, foi com alguma comoção que comecei a folhear o recente livro “Santa Marta de Portuzelo” editado pela respetiva Junta de Freguesia, da autoria de Alberto A. Abreu meu digníssimo professor de “Introdução à Política” na então Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo nos anos idos de 1975/76. Com origem numa ideia genial, escrito por um autor conceituado, capa dura, imagens coloridas, tinha tudo para ser um livro excecional.

Quando abro pela primeira vez um livro, começo por consultar o respetivo índice/sumário, para ficar com uma ideia do seu conteúdo. Comecei a folhear e logo na página 5, ao ler o sumário, não vi qualquer referência a duas datas marcantes da nossa história: 5 de outubro de 1910 (data da implantação da República); e 25 de Abril de 1974, sobejamente conhecida. Não se passou nada em Santa Marta de Portuzelo nessas datas? Se para o 5 de outubro não disponho de informação, o 25 de Abril vivi-o intensamente e guardo-o como um tesouro nos arquivos da memória. Perguntei-me: porque não terá o Dr. Alberto Abreu, digníssimo historiador, feito referências alusivas a essas datas tão marcantes da nossa história?

Continuei a minha leitura e na sua nota introdutória de 27 de julho de 2017, o Dr. Alberto Abreu refere que foi “escrito num tempo record, em constante conflito com o calendário e o relógio…”. Diz o povo que “a pressa é má conselheira”. Lembrei-me, então, que a 1 de outubro de 2017 teremos eleições autárquicas…. Mau augúrio para início de leitura, Sr. Presidente.

Continuei a ler e fui aprendendo algumas coisas e relembrando outras, sobre a terra que me viu nascer. Verifiquei várias imprecisões: na página 141 pode ler-se que a Casa d`Avó é em Samonde – perguntei ao “dr. Google” pelo número de telefone e de seguida telefonei para o restaurante onde me informaram que se localiza em Serreleis! Que estranho, o Presidente da Junta de Freguesia não saber! Na página 181 mostra-se uma imagem do Grupo Folclórico de Santa Marta “2002 Deslocação à Corei do Sul a quando dos Jogos Olímpicos”. Comeram o “a” à Coreia! Uma gralha… não deve, mas acontece. Voltei a consultar o “dr. Google” e informou-me que os jogos olímpicos de verão em Seul foram em 1988! E o que aconteceu em 2002? Foi o campeonato do mundo de futebol. Em que ficamos então? Mas há mais, na página 164 no que se refere a “Outros ramos do artesanato” refere que “um deles é João Duro que ainda se dedica à morosa e paciente confeção de chinelas do traje regional feminino”. Ainda se dedica? O João Duro, meu querido e saudoso amigo faleceu, infelizmente, há alguns anos. Parece-me que omitiram propositadamente o nome da pessoa que lhe herdou os saberes… será isso?

O que listei foram apenas coisas menores. Quando li “O ensino” na página 171, aí fiz uma leitura mais profunda e cuidada: sempre escrevi Talharezes com “z” agora aparece com “s” Talhareses. Estaria enganado? O “dr. Google” confirmou que é com “z”. Mas na página 172 do livro a minha indignação começou a crescer. No que se refere à escola secundária Pintor José Luis de Brito, lê-se que “nesta luta que foi vitoriosa, desempenharam um papel decisivo o Presidente da junta de Freguesia e o antigo pároco Dr. Agostinho Amoedo Luís”. Primeiro, Agostinho Amoedo Luís, nunca foi pároco. Foi sim coadjutor (auxiliar) do pároco de então, que respeitosamente na minha infância conheci por Sr. Reitor, esse sim pároco, o cidadão Agostinho José Luis de Brito. Agostinho Amoedo Luís foi muitas vezes a Santa Marta falar com o então Presidente da Junta de Freguesia, Luis Gonzaga, defendendo a instalação da Escola em Santa Marta, pela ligação que tinha à terra, mas também porque receava que a Escola fosse instalada em Barroselas, a qual ficaria muito próxima do Externato das Neves, do qual era Diretor. Caberá aqui e agora perguntar-lhe Sr. Presidente: O presidente da junta de então não tinha nome? Porque ocultaram o seu nome no livro que saiu com a chancela da Junta de Freguesia de Santa Marta de Portuzelo? Pois se o senhor não sabe, o que é natural, pois é santamartense por adoção (sendo pessoa de bem é bem-vindo à família), o seu mentor saberá. Esse cidadão a quem ocultaram o nome chama-se Luís Gonzaga Parente Ribeiro Moreira, mais conhecido por “Luís do Souto”, pessoa muito estimada em Santa Marta de Portuzelo, por quem nutro uma forte amizade há muitos e longos anos. Trabalhou imenso nos cerca de 16 anos em que foi Presidente da Junta de Freguesia, o lugar que o senhor agora ocupa. O reconhecimento que lhe dá o atual Presidente da Junta (e o seu mentor) é ignorar o seu nome numa publicação sobre o seu trabalho?

Acha justo? Gostaria que lhe fizessem o mesmo a si? Porque será que alguns são elevados pelo Sr. Presidente a deuses do Olimpo (mas nós sabemos que têm pés de barro) com direito a fotografia para a história, e outros que trabalharam arduamente para a freguesia de Santa Marta de Portuzelo são puramente ignorados? É este o seu sentido de justiça? E do seu mentor? Foi isso que lhe ensinaram na escola? E já agora para terminar, no último parágrafo da página 172 refere que “mas em Santa Marta também se formaram professores que notavelmente se afirmaram no campo do ensino…”. Sabe o Senhor Presidente quem foi a primeira pessoa de Santa Marta de Portuzelo a obter um doutoramento académico (o grau de Doutor escrito por extenso)? Pois aconselho-o a consultar os números do Jornal Betânia do Lima de Setembro de 1999, nº 224, página 3, e também o nº230, página 1, de março de 2000. Também ficou omisso.

Mas avancemos. No que às Letras diz respeito, porque ignoraram também o nome do poeta Carlos Lobo de Oliveira, nascido em Santa Marta de Portuzelo a 22 de janeiro de 1895? Foi magistrado de profissão, mas desde cedo se dedicou à poesia tendo sido amigo de Fernando Pessoa e de Jorge Luis Borges (ver Jornal Aurora do Lima de 23 de março de 2012). Tem sonetos musicados pelo maestro Ruy Coelho e pelo compositor Gabriel Nosolini.

Pelo exposto se constata que a publicação se encontra com várias imprecisões e omissões. Não será isso considerado uma fraude?

A história de qualquer freguesia não é de um partido político Sr. Presidente. É de todos os seus habitantes. Exige-se rigor e tratamento igual a todos os cidadãos - é esta a premissa que o senhor deveria cumprir e não cumpriu. Pintou-a com as cores dos seus, que são as suas também. O Dr. Abreu como historiador também não fica bem na fotografia. Os santamartenses são todos iguais em direitos e deveres, mas parafraseando George Orwell, para si Senhor Presidente, e para o seu mentor, uns são mais iguais que outros. Para terminar gostaria apenas de lhe lembrar a si e ao seu mentor um provérbio indiano que nos diz que “os pavões de hoje serão os espanadores de amanhã”.

Manuel Gilberto Freitas Santos

 

PS - Continuo a achar que a ideia foi genial. No entanto, proponho que se recolha o maior número possível de livros para serem destruídos. A versão a que tive acesso está cheia de imprecisões e omissões. O texto em formato digital, deve ser corrigido. Em abono da verdade, o que está omisso deve ser incluído. As cores políticas não devem existir neste tipo de publicações. A história de qualquer terra é feita com todos e para todos os seus habitantes, independentemente das suas cores políticas. Um pequeno prejuízo para corrigir um gravíssimo erro sobre a história da terra que me viu nascer. Haja coragem Sr. Presidente.

Autor:

Gilberto Santos

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