BICADAS DO MEU APARO: Zangado o mar português!

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Artur Soares

Cidadão d' Aldeia 

Sempre o mar foi paixão e motivo de heroicidade dos portugueses. Sempre soubemos amar o mar, explora-lo, vivendo (também) do mar. Nunca as duas primeiras repúblicas abdicaram do mar em nenhum dos seus aspectos e até nas moedas do dinheiro português existiam as caravelas, das quais os políticos abrileiros de 1974 se envergonharam.

Fomos heróis do mar e ainda hoje com força e garra cantamos o “Heróis do Mar”, embora já tentassem substituir o poema, a nossa identidade, as nossas convicções, a nossa realidade como povo do mar e de povo mais antigo como nação.

Mas o nosso mar era palco de grandes navios, de bons barcos de pesca e tínhamos dos melhores profissionais e dos mais sacrificados a apanhar o que consumíamos. Portugal estava ligado ao mar.

Através do mar se faziam os grandes transportes para África, etc. e mesmo para o estrangeiro. Com o vinte e cinco do quatro, tudo se alterou. Já não era preciso nem convinha marinhar para a África, principalmente para a ex-portuguesa, e tudo teria que ser feito para desligar Portugal do passado, das anteriores duas repúblicas, anárquica e fascizante.

Além de “ter sido vergonhoso e retrógrado” ter-se utilizado o mar contra os africanos (então) portugueses, politicamente era imprescindível esquece-lo para dar satisfações aos Americanos e sobretudo á Rússia de 1974. Entendiam assim os revolucionários do Processo de Revolução em Curso (PREC), que devia ser esquecida a política económica caduca/artesanal, sobretudo na zona agrícola, e virarmo-nos para a economia actual, rendável, sofisticada, porque as politicas anteriores “eram aromas salazaristas.”

 

Nesta terceira república, atraiçoado e ofertado o Império, por Álvaro Cunhal, Rosa Coutinho, Mário Soares e o Processo Revolucionário em Curso (prec), perfumados os sovacos dos revolucionários e afinada a língua no esmeril dos homens que “apenas amolavam tesouras e navalhas em prol do país”, passamos a comer produtos agrícolas e carne do mar importados e pagos a peso de ouro, fabricando desse modo milhares para o desemprego e para a confusão profissional de tantos. Tais revolucionários, para que Lenine ou Marx se não agitassem na tumba, até acabaram com o programa da televisão “Mundo Rural”, apresentado pelo engenheiro Sousa Veloso, “porque caduco”.

Tinha a segunda república de Salazar em 1970, 150 navios e hoje parece que ainda existem oito. Pescávamos cerca de 580 mil toneladas de peixe por ano que abasteciam o país e se exportava. Hoje, porque não existem navios nem barcos capazes, pescamos menos de cem mil toneladas e, até o pescado na água doce, praticamente não existe.

 

A vizinha Espanha, que esfregou as mãos ao ver o abandono de Portugal pelo mar e tendo conhecido o acordo entre a União Europeia e Marrocos sobre a pesca marítima portuguesa, deram uma volta de tal forma à sua (deles) indústria pesqueira que, abastecendo-se o suficiente, exportam atualmente peixe para qualquer canto do mundo e, como não podia deixar de ser, compramos-lhes pescado e produtos agrícolas, sabendo que tudo isso nos custa 800 milhões de euros por ano.

 

Assim, nem se sabendo o que fizeram do dinheiro dos navios vendidos e porque ser revolucionário nesta terceira república era bem visto “pelos nossos amigos europeus”, sobretudo pelo “notre ami Miterrand” – como afirmava e se vangloriava Mário Soares - o ex-presidente da república Cavaco Silva – como nunca errou - não teve problemas em ter abandonado definitivamente o interesse pela agricultura e as pescas, enterrando bem fundo a Marinha Mercante e a Construção e Reparação Navais.

Infelizmente, o nosso mar, ostracizado por aqueles inocentes governantes se terem envergonhado por Portugal de 1974 estar “ligado ao mar”, tais águas nem servem para industrializarmos o turismo, nem fomentarmos os desportos marítimos e nem termos a cultura da contemplação do mar.

 

Assim há que pagar a factura da perda da exploração da terra e do mar, pela opção das estradas e autoestradas que servem os transportes de outros europeus que nos vendem (esses) produtos, e reconhecer que temos, por causa disso, fortunas nas mãos de alguns que, através da Lei nº 34/87, ninguém investiga, ninguém julga e ninguém é condenado: quanta mais vida rapace praticada por essa gentalha, sem escrúpulos e avampirados, mais vassalagem lhes prestam, mais amados se tornam, mesmo que a lei exija o contrário.

 

É de crer que o nosso mar, abandonado e “sentindo-se” inútil aos portugueses, deve “estar triste” com um Ministério da Agricultura e das Pescas que teima em não existir, mas sobretudo triste por ser mar gerido por políticos incapazes, serviçais, sem moralidade, sem noção de estadistas e sem patriotismo. 

 

(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).