BICADAS DO MEU APARO: Falta dominar a terra!

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Artur Soares

Escritor d' Aldeia

“Ignoramos o tempo em que virá o fim da vida na terra, logo, da humanidade também. Mas sabemos o modo como se transformará o universo. A figura deste mundo passa, e sabemos, acreditamos, que Deus prepara uma nova morada e uma nova terra, onde reinará a justiça”.

 

Segundo o que está escrito, Deus, após a criação do homem, convidou-o a que frutificasse e que submetesse a si toda a terra. Isto é, dominar a terra, todos os animais e “que as águas sejam povoadas de inúmeros seres vivos”, em seu benefício.

Não disse comprai, vendei ou matai-vos pela terra e pelos mares. Mas sim “dominai e adaptai”.

 

Não um domínio como aqueles marxistas/leninistas que, logo pós o 25 de Abril exigiram, quando no muro branco dum cemitério em Vila Nova de Famalicão escreveram a preto: “levantai-vos malandros, que a terra é de quem a trabalha”. Nada disso.

 

Deus convidou ao domínio e adaptação da terra, com respeito e interesse a favor da Humanidade – para dela fazer habitação e semear – sem expulsar ninguém e, muito menos expulsar do útero da terra os que dormem o sono final. Pensar isso é loucura, reivindicar isso é falta de educação, é animalidade.

 

E dominar os animais e os peixes do mar, acreditamos que sempre o homem esteve à altura de tal domínio. Por vezes chegam notícias em que se domina em demasia, sem respeito pelo próprio mar, onde surgem associações e pessoas individuais a denunciarem o selvagem domínio que em vários países se faz quanto à pesca no mar.

Bem conhecemos a ação dos homens do mar e seus abusos. Bem conhecemos as leis e os limites desse domínio, onde o próprio tamanho do peixe conta para ser pescado.

Quanto ao domínio dos animais em terra, também os abusos têm sido muitos e constantes em qualquer comunidade.

 

Existem caçadores para todo o género de animais e para diversos fins: lucro e enriquecimento selvagem, desporto e consumo.

Tal acção pressupõe a traição aos animais. É a acção do forte-cobarde que de arma em punho abate, rouba, desnecessariamente tantas vezes, a vida que pode criar vidas.

Há caçadores que apenas caçam simples animais, nem que sejam as pombas do vizinho. Há caçadores verdadeiramente frios, sem pejo de matar.

 

Muitos anos atrás, justificavam a caça como treino ou instrução para fazer a guerra. Também a nobreza, organizava caçadas para fazer festa, provar destreza e perspicácia no tiro, buscando a morte da mansa e indefesa fauna.

Ainda o caçador, salvo as devidas exceções, é naturalmente invejoso. Nunca está satisfeito com o que caçou, ou no mínimo, é um jactancioso que necessita de provar o poder, transformando a vida animal – selvagem – em morte.

 

Multiplicai-vos, dominai e adaptai a terra, os animais e os peixes do mar, convidou Deus o homem a tal acção. Mas se tem dominado os animais e o peixe do mar, dominar a terra não domina: não tem dominado.

Onde estão os homens e os programas para aplanar, semear e colher, para bem da Humanidade, dominando e adaptando a terra? O mar continua grande, farto e pronto a dar o que tem. Mas a terra é necessário adapta-la.

Onde estão os engenheiros, os arquitetos, os mestres que podiam adaptar para o homem as montanhas que maltrata, que despe, que queima, que suja e que esventra? E a montanha, precisamente porque é o local mais próximo de Deus, devia ser mais adaptada, e sobretudo, mais amada!

 

Desde sempre a montanha esteve ligada ao sagrado, conforme nos confirma a história e a própria Bíblia. Noé foi salvo no monte Ararat, com seus familiares e todos os animais recolhidos, segundo vontade de Deus; Moisés falou com Deus no monte Sinai e salvou o seu povo; Salomão construiu o seu primeiro templo no monte Moria, etc. E ligados à história do cristianismo, temos os montes da Tentação e da Agonia de Cristo, o monte da Transfiguração e tantos outros.

 

Dominai e adaptai a terra a vós, convidou Deus!

Mas queima-se a terra e o que ela contém; vende-se a terra a quem nada faz por ela; conspurca-se a terra, envenenando-a o próprio homem!

Carducci, pagão por ideologia, chamou a Terra de “fria”, porque apenas via o mármore sob o qual seria enterrado. Giovanni Papini, o baralhado e sôfrego escritor Florentino, chamou-lhe de “Mãe”. E se à Terra se lhe pode chamar Mãe, mal não parece se a considerarmos berço e fonte alimentar de toda a Humanidade.

Assim, é estranha a resposta do homem ao convite de Deus. Continua a caçar e a pescar, tantas vezes para encher a carteira. Mas a terra… essa, ainda não foi adaptada!

 

(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)