Arcuense Marta Codeço faz ciência num dos melhores centros europeus de investigação para “entender a Terra”

Compreender “o planeta onde vive” é aquilo que fascina a cientista Marta Codeço, que, em menina, começou logo a fazer perguntas para perceber a estrutura da Terra, a sua origem, natureza e respetivas transformações.

Licenciou-se em Geologia, fez mestrado em Geologia Económica e frequenta o doutoramento em Geoquímica, no GFZ Potsdam (Alemanha), um dos mais conceituados centros de investigação da Europa.

Complementarmente, em tempo recorde, tem construído um percurso ascensional. Trabalhou como bolseira de investigação científica/geóloga em projeto que emparceirou a universidade e o mundo empresarial. Apresentou para plateias internacionais (Paris e Bremen) os resultados dos trabalhos de investigação por ela efetuados. Publicou um artigo na afamada revista Chemical Geology, onde “reporta os primeiros resultados do projeto de doutoramento” em Geoquímica. E prepara, entretanto, outros artigos científicos.

A jovem arcuense faz parte de uma geração que se está a formar lá fora, interagindo com diferentes realidades, para fazer a diferença. Diz que Portugal não tem capacidade para financiar a ciência e a formação avançada, por isso, Marta Codeço não alimenta expetativas em regressar a Portugal quando terminar o doutoramento na Alemanha, preferindo, portanto, “continuar a trabalhar no estrangeiro”.

Marta Codeço

 

MD - Chegou a ingressar no curso de Direito, mas depois mudou de rumo. Quando é que se deu o clique, “não é Direito que quero, agora, vou estudar Geologia”?

Quando desisti do curso de Direito, para o qual não tinha a mínima vocação, fi-lo pensando: ‘vou fazer aquilo que me dá gozo realmente’. Na verdade, sempre tive um fascínio pela Geologia. Às vezes, o meu pai apanhava minerais em caminhos ou estradas em construção e eu ficava fascinada com eles. No início, o que me despertou mais interesse foi a história da própria Terra e como os continentes se moviam, como se formaram cadeias de montanhas gigantes e supercontinentes; como se formam os diferentes tipos de rochas e em que ambientes estas surgem e, claro, os vulcões. De um modo geral, aquilo que me fascinou e ainda hoje me fascina foi, e é, entender o planeta onde vivo.

MD - Depois da licenciatura, efetuou mestrado, trabalhou como bolseira, frequenta o doutoramento e faz ciência além-fronteiras. Fale destas experiências entrecruzadas.

Terminei a licenciatura em Geologia em 2012 e, cerca de um ano depois, iniciei o mestrado em Geologia Económica. Entre 2012 e 2015, trabalhei, também, como bolseira de investigação científica/geóloga, numa parceria técnico-científica, entre a Fundação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e a Empresa Portuguesa de Obras Subterrâneas (EPOS), projeto intitulado “Contrato de prestação de serviços de acompanhamento a trabalhos de prospeção e pesquisa mineral na área de Albernoa”.

Foi no seguimento deste trabalho que fiz a tese de mestrado: “Estudo comparativo das sequências vulcânicas constituintes dos eixos Ervidel-Roxo e Figueirinha-Albernoa (Faixa Piritosa Ibérica) e respetiva relevância na prospeção de sulfuretos maciços polimetálicos”. O objetivo foi encontrar indicadores e padrões geoquímicos que nos permitissem distinguir, durante a fase de prospeção (pesquisa) mineral, se determinada área tem potencial para desenvolver uma mina.

MD - A seguir, investiu no doutoramento sobre uma área cara à ciência portuguesa...

Em julho de 2015, iniciei o doutoramento (três meses após ter defendido a tese de mestrado). A temática do projeto recaiu sobre a mina da Panasqueira (Castelo Branco) e, contrariamente, ao que fiz no mestrado, aqui, pretendo contribuir para o conhecimento do depósito. As pessoas podem pensar, o que é que isso interessa? […] Mas interessa do ponto de vista científico e, mais uma vez, a ideia é encontrar indicadores que nos possam ajudar mais rapidamente a encontrar este tipo de depósitos. […]

MD - Relacionado com o doutoramento que está a fazer, publica, em setembro último, um artigo na revista Chemical Geology. A que diz respeito esta reflexão escrita?

O artigo “Composição química e isotópica em turmalina hidrotermal do depósito de W-Sn-Cu da Panasqueira, Portugal”, título traduzido da versão original em inglês, reporta os primeiros resultados do meu projeto de doutoramento. De um modo simplista, usa-se um mineral (turmalina) para compreender qual a origem dos metais explorados (tungsténio, estanho e cobre) e quais as condições de formação previamente e durante a deposição destes metais.

Marta Codeço

MD - Em que fase se encontra o doutoramento que frequenta na Alemanha?

Estou a menos de um ano de concluir o doutoramento na Universidade de Potsdam/GFZ Potsdam (Estado de Brandeburgo) e, embora uma parte do meu estudo esteja concluída, ainda há muito trabalho pela frente. Para além do mineral que analisei previamente, estamos também a estudar um outro (moscovite), que também nos dá indicações acerca da origem dos metais. E importa, de facto, insistir neste assunto, pois ainda é uma temática muito debatida na comunidade científica que tem estudado a Panasqueira ao longo dos anos. […] Pretendemos refutar os dados anteriores com os que estão a ser obtidos atualmente.

MD - Entretanto, encontra-se, agora, no Canadá. Como é que apareceu este desafio?

Sim, entretanto, surgiu a oportunidade de fazer análise de elementos traço (elementos presentes em baixa abundância nos minerais, mas que dão indicações do ambiente de formação dos mesmos) em moscovite e turmalina, no Canadá. Obviamente, não deixei escapar. Trata-se de uma colaboração com um professor da Universidade McGill, em Montreal. […].

MD - Que outras experiências já conheceu além-fronteiras desde que se mudou para a Alemanha?

Em termos de colaborações, esta é a primeira que estou a fazer fora da instituição onde trabalho, no entanto, já me desloquei a Paris (em agosto) para apresentar o meu trabalho numa das maiores conferências de Geoquímica do mundo (mais de 4 mil pessoas). Em setembro, apresentei este e os resultados do meu mestrado noutra conferência em Bremen (Alemanha).

MD - O que é que representa trabalhar em prestigiadas instituições e que perspetivas isto abre para o futuro? Sobre que matérias trabalha agora? E o que gostava de investigar a fundo para se realizar?

Frequentar o GFZ Potsdam […] dá-me alguma vantagem. E tenho muito mais experiência adquirida com equipamentos analíticos, do que alguma vez sonharia ter, se fizesse o doutoramento em Portugal.

O que conta neste mundo é publicar artigos científicos. Até ao momento tenho um artigo publicado e quatro resumos em conferências […]; tenho o artigo do mestrado em processo de revisão; outro artigo sobre turmalina de um depósito de ouro no Brasil também em revisão (este como coautora); e o artigo sobre a moscovite em fase de redação e aquisição de dados. Se tudo correr bem, estará publicado para meados do primeiro semestre de 2018. Um outro artigo, que trará os resultados da modelação numérica, será publicado, possivelmente, após a conclusão do doutoramento. Tudo isto, mais a experiência em termos de técnicas analíticas, conta para conseguir um pós-doutoramento, portanto veremos.

Gostaria de continuar a trabalhar na área de Geologia Económica e Geoquímica, que é aquilo que, dentro da minha área, me dá efetivamente gozo fazer. Se isso se realizará, ou não, veremos, mas trabalho para isso.

MD - Os portugueses têm a perceção de que é difícil fazer ciência em Portugal e que o país não consegue “reter” as melhores cabeças. O que é que pensa disso?

Penso que os portugueses estão certíssimos: Portugal não tem capacidade monetária/de investimento e infraestruturas (laboratórios, instituições e centros de investigação) para reter cientistas. E, cada vez mais, se quisermos vingar no mundo da ciência, precisamos de equipamentos de alta precisão, que não existem em Portugal ou são extremamente escassos. […] Portanto, a não ser que os cientistas façam colaborações com colegas estrangeiros, não há grande hipótese de fazer estudos que compitam com a comunidade científica internacional. Eu como cientista, […] não me arrependo minimamente de ter saído do país. Estou a ter uma oportunidade única na Alemanha e espero continuar a trabalhar no estrangeiro. Tenho sérias dúvidas acerca daquilo que poderia ir fazer para Portugal após o meu doutoramento.

 

Quem é Marta Sofia Ferreira Codeço

. Tem 27 anos.

. É natural de Padreiro (Salvador e Santa Cristina).

. É licenciada em Geologia, tem mestrado em Geologia Económica (Universidade de Lisboa) e está a fazer doutoramento em Geoquímica (Universidade de Potsdam/GFZ Potsdam, Alemanha).

. Publicouartigo científico na revista Chemical Geology e apresentou vários trabalhos de investigação para plateias internacionais.

. Tem como lema de vida “A sorte protege os audazes” (do original: “Audaces fortuna iuvat”, de Virgílio).