Alma

Armando Caldas

Armando Caldas

Médico

Uma das mais antigas discussões filosóficas é a existência do transcendental, de algo não material que faz de nós mais do que uma orgia de átomos e moléculas, os quais, em determinada fase da história do Universo resolveram ser mais do que lava, pó ou água e começaram a interagir para se agregarem em estruturas animadas a quem foi conferido, com prazo de validade, capacidade para originarem cópias físicas originais por troca de listas complexas de oxigénio, hidrogénio, carbono e fósforo.

 

O cerne das discussões filosófico-teológicas é saber se somos apenas uma casual mistura de água e pó, fermentada pela meteorologia ou, se pelo contrário, existe algo não palpável que faz a diferença entre as partículas inanimadas que nos antecederam e as partículas inanimadas em que nos haveremos de converter.

O fio condutor que liga o nosso presente ao nosso passado enquanto nos dirigimos para futuro pode ser enquadrado no conceito de alma, independente de ser apenas algo virtual que molda o nosso ego ou algo dotado de uma componente transcendental que existe para além do corpo.

O conceito de alma imbrica-se na identidade da mente, algo que dá individualidade e continuidade temporal ao nosso invólucro carnal, armazenando as nossas memórias como herança do nosso passado e constatação do presente. Algo que nos faz pensar que pensando existimos, pelo menos até ao dia onde o nosso corpo parar de alimentar a vida ou deixar de pensar.

Saber se somos algo mais que o corpo onde vive a nossa vida, permitindo uma ligação ao passado que existia antes de nós existirmos e ao futuro que continuará a existir depois de nós existirmos, é uma certeza que a ciência ainda não conseguiu comprovar ou desmentir de forma cabal, apesar das certezas que o acumular de conhecimentos nos trouxe para desmistificar muitos dos mitos que serviam de trave mestra às certezas anteriores.

 

Se a chegada de alguém ao mundo dos vivos é geralmente motivo de celebração, a partida de alguém que nos é agradavelmente próximo ocasiona, por um lado, uma sensação de perda e por outro uma sensação de impotência perante os constrangimentos e fragilidades da nossa condição de humanos.

Se é certo que temos sentidos suficientes para ter uma perceção razoável do que existe para cá do além, o que existe para lá do além – a existir – não passa de especulação alimentada pela fé de sermos mais do que a morte nos condena a ser.

O conceito de alma é comum à maior parte das religiões, mas a sua interpretação é variável.

Para a maioria das religiões assentes na Bíblia onde entroncam Judaísmo, Cristianismo e Islão, a alma é a parte imaterial de cada um de nós que dura eternamente, mesmo após a morte do corpo, destinada a uma vida para além da morte onde o nosso destino após a morte depende das nossas escolhas até à morte.

Em contrapartida, para as testemunhas de Jeová a alma é mortal tal como o corpo, dependendo a vida após a morte da vontade de Jeová.

Com uma perspectiva diferente, para o Induísmo a alma, ou atman, corresponde a um espírito individual que faz parte de uma alma universal, o qual difere do que existe no cosmos apenas pela autoconsciência.

Em contrapartida, para a ciência a alma é encarada com pragmatismo, atendendo a se tratar de algo que, pelo menos até à data, não se pode provar que exista. As chamadas experiência de quase-morte são controversas, potencialmente atribuídas a alucinações. Existem igualmente estudos realizados em crianças que avaliam a existência estados anteriores ao nascimento, os quais poderiam sugerir reencarnação, mas apenas no campo hipotético.

 

Saber quem somos e o que somos enquanto fragmentos do tempo é ainda uma certeza apoiada na especulação de tentarmos encerrar nas quatro dimensões que conhecemos o Universo, o que pode estar muito para além do tempo e do espaço que nos é dado a conhecer através dos nossos sentidos e do conhecimento construído através dele em busca das fronteiras onde o tudo e o nada se confundem.

A alma pode ser apenas a nossa tentativa de sermos mais do que a nossa existência, condenada a ser finita, ou o caracter que comanda a nossa mente, nos regula as opções e nos garante a individualidade.

Ou eventualmente mais do que isso.

Aquém ou além do que imaginamos.

Aquém ou além do que desejamos.

 

 

 

               

 

               

 

 

 

Autor:

Armando Caldas

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